terça-feira, dezembro 27, 2005

Ainda o NATAL !

Dois poemas: NATAL, de Domingos Gonçalves Costa e FADO, de João Linhares Barbosa

NATAL

Natal ! Um hino de esp'ranças
De ilusões e sonhos ledos
Quando as felizes crianças
Pedem beijos e brinquedos !

Natal ! Há destinos falsos
Nesta vida triste e breve
E andam pèsinhos descalços
Caminhando sobre a neve !...


FADO

Nossa Senhora faz meia,
Com linha feita de luz
O novelo é lua cheia
E as meias são para Jesus.

Quando a noite é escura e bela,
Diz-se lá na minha aldeia,
Que à janela duma estrela
Nossa Senhora faz meia,

A rodar em dobadoura
Andam quatro anjinhos nus
Prendendo nossa Senhora
Com linha feita de luz.

Jesus pequenino e loiro
Na linha todo se enleia,
As quatro agulhas são d'oiro
E o novelo é lua cheia.

Dormem as coisas mais santas,
Só a mãe santa produz
Faz serão até às tantas
E as meias são para Jesus.

Saiba porquê !...







O seu Pai Natal atrasou-se ?

Pois!...

sexta-feira, dezembro 23, 2005

NATAL

A todos os meus amigos e a todos quantos fazem o favor de me visitar e, particularmente, aos que, comentando, me fazem companhia, os meus votos de um NATAL que em tudo corresponda ao que desejam.
E, para todos, este poema de David Mourão-Ferreira
NADA/NATAL
Este lume que já nos não aquece
Este medo do nada que nos contem
Esta névoa de nata em vez de neve
E a nossa vida cada vez mais ontem
Este Sol que não rompe sob os cactos
Estes mortos de novo hoje tão perto
É no búzio dos crânios exumados
que melhor nós ouvimos o deserto
Estas folhas de plátano Estas mãos
que o fogo vai torcendo lentamente
Esta cinza no fim de uma oração
Este sino Este céu sobrevivente
Mas soa a meia-noite E logo o nada
deixa de estar em tudo como estava

quinta-feira, dezembro 22, 2005

ELISABETE

Hoje, como forma de homenagem, são para ti estas palavras, retiradas de um livro que um dia me ofereceste:

"... A mim também me fogem as horas e os dias se transformam em anos. Mas não te esqueço. E nenhum pensamento que me tenhas dedicado deixou de chegar até mim planando nas asas do silêncio. Onde quer que estejas, aperto a tua mão através da distância.
Com o meu carinho de sempre."

(in "Para uma grande amizade")

domingo, dezembro 18, 2005

O MEU CORAÇÃO PAROU

*********

O MEU CORAÇÃO PAROU
e tudo ficou parado
A voz de cantar meu fado
emudeceu na garganta
Não chego a saber quem sou
nem o que faço na vida
Sou folha no chão caída
Sou poeta que não canta
Nem um grito de revolta
nestes meus lábios cansados
Nos meus olhos magoados
o olhar de ver ninguém
Sou quarto onde ninguém volta
Sou um berço sem menino
Uma carta sem destino
que não sabe donde vem
Eu sou o louco mais louco
à solta por esse mundo
Sou um verso tão profundo
que ninguém o decifrou
Tudo isto porque, há pouco,
Quando cheguei não te vi
E até tu voltares aqui
O MEU CORAÇÃO PAROU !

(F.Menor, Letra de A. Ribeiro, interpretação de F. Maurício)

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Fabulosa Berta













Em 1967 venceu mais uma batalha contra Aquela que, mais cedo ou mais tarde, acaba sempre por vencer !...
("Clique" sobre a imagem para ampliar e poder ler a notícia)

quinta-feira, dezembro 15, 2005

DESPEDIDA

É sempre tristonha e ingrata
que se torna a despedida
de quem temos amizade
Mas, se a saudade nos mata,
eu quero ter muita vida
para morrer de saudade !

... ... ... ... ...

É assim que começa o fado intitulado "Despedida", com música e a interpretação carismática do Marceneiro de mais uma notável letra de Carlos Conde.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

domingo, dezembro 11, 2005

NARCOTI CURE !










Cartaz Publicitário 1895
William H. Bradley

Curar a dependência com outra dependência !?...

sábado, dezembro 10, 2005

Recordações

Dez. 1968

Lisboa, 5 - Na sede da Ordem dos Advogados foi comemorado o XX aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Lisboa, 19 - Na Assembleia Nacional foram aprovadas as alterações propostas à lei eleitoral, pela qual passam a ter voto todas as mulheres e os analfabetos que já eram eleitores anteriormente.
(Há apenas pouco menos de 40 anos, concederam a todas as mulheres o direito de voto, mas equiparando-as, mesmo as mais escolarizadas, aos analfabetos, certo ?
Assim se conclui que os nossos homens, mesmo os analfabetos, eram considerados umas luminárias, enquanto que as mulheres, meu Deus !, cambada de loiras!!!!!!!!!!!!!!!!.........
Estamos em 2005 e, embora quase diariamente ouça piadas sobre loiras, ainda nunca ouvi uma única sobre loiros...
Assim se conclui que os meninos, mesmo os mais analfabetos, continuam a ser aquelas mesmas luminárias, mas que as meninas, coitaditas, mesmo as mais ilustradas, são quase todas loiras... Por isso, desculpem qq. coisinha!...)
S.Paulo, 1 - O português Joaquim Agostinho venceu a Volta Ciclista ao Estado de S. Paulo; por equipas, ganhou a de Portugal.
(Nesses tempos é que era mesmo por amor à camisola !...)
Lisboa, 29 - Abertura do novo Teatro Laura Alves, instalado na sala do antigo Cinema Rex.
Paris, 10 - Inauguração do Théatre de la Ville, instalado no edifício do antigo Teatro Sarah Bernhardt. Para além da sala de espectáculos, este teatro tem um clube, um bar, um restaurante, uma biblioteca e ainda um museu com as recordações e objectos pessoais da grande actriz que ali reinou.
(Estas nem comento...)
Cabo Kennedy, 27 - Terminou com pleno êxito a primeira viagem interplanetária, da Terra à Lua e volta, efectuada durante 147 horas pela cápsula «Apolo-8», tripulada pelos cosmonautas americanos Frank Borman, James Lovell e William Anders.
(Desde que o Homem foi à Lua, nunca mais nada foi como era!... Andamos todos ALUADOS...)
Setúbal, 29 - O poeta setubalense António Maria Eusébio, o «Calafate», foi perpetuado, na sua terra natal, com um busto descerrado no parque do Bonfim, oferecido pelo Rotary Clube daquela cidade.
(Nascido na segunda década de mil e oitocentos, em Setúbal, calafate de profissão, poeta popular e fadista ou cantador, como então se dizia; em 1901 publica o livro "Versos do Cantador de Setúbal", com prefácio de Guerra Junqueiro. Morre em 1911.)
Nova Iorque, 21 - Faleceu o famoso escritor John Steinbeck, de 66 anos, Nobel da Literatura, autor, entre outros, dos romances «As vinhas da ira» e «O milagre de S. Francisco».
(Também já temos um Nobel da Literatura, o incomparável e controverso Saramago)
Leiria, 8 - Inaugurada uma estátua do Papa Paulo VI, para comemorar a passagem do Sumo Pontífice por esta cidade de Leiria, a caminho de Fátima, em Maio de 1967. É autor da estátua o escultor Charters de Almeida.
(Cidade de gente muito devota, esta... Pertencente à Diocese de Leiria-Fátima, uma das maiores dioceses do país, senão a maior - mais de 260.000 habitantes, com uma área de 1.700 km2, encontra-se dividida em 74 paróquias, pertencentes aos concelhos de Leiria, Marinha Grande, Batalha, Porto de Mós, Ourém, parte dos concelhos de Pombal, Alcanena e Alcobaça e ainda o Santuário de Fátima.)

Contas complicadas !

Dois pequenitos falam, durante o recreio:
- Quantos irmãos e irmãs tens?
- Não sei ao certo, mas tenho dois pais da minha primeira mãe e três mães do meu primeiro pai !...


Bom Domingo!

BARCELONA/FADO


Espero que este bilhete chegue a Barcelona. Selo, já tem!

Não é para vos falar da magnífica cidade de Barcelona, nem sequer do fantástico hino Barcelona, interpretado pelas vozes maravilhosas de Freddie Mercury e Monserat Caballé que, hoje, a vós me dirijo; venho falar-vos de vozes, mas de vozes do Fado. E informar-vos:
No próximo dia 16, no Auditório da Societat General d'Autors i Editors, vai ser apresentado, pelo seu autor Manuel Halpern, o livro "O Futuro da Saudade - O Novo Fado e os Novos Fadistas". Fiquei satisfeita com a notícia porque entendo que é bom que se divulgue, por outras pátrias, a Cultura Portuguesa, nomeadamente o Fado, a que alguns também chamam Canção Nacional.
Contudo, e agora só para si, Manuel, o meu receio é que não tenha emendado ainda aquela montanha de erros que tinha o livro que adquiri - 1ª edição:Nov. de 2004 ......
É que, mais dia menos dia, pode ser finalmente publicado um livro sobre Fado, à séria, com as referências históricas todas certinhas, fruto de muita investigação e trabalhinho, e o menino depois fica mal visto (só por alguns, é certo) e sempre tem um nome a defender, quer como jornalista e crítico musical, quer como intelectual...
Sim, que não podemos ficar eternamente neste deixa andar da parvoeira, coitado o rapaz diz umas coisas menos certas, mas tem boa vontade...
E agora só para vós, "Barcelonenses", Não vos acrediteis, pois, em tudo quanto diz o Manel! Perguntai-lhe primeiro se já emendou os erros e se o não fez ainda, dai-lhe o desconto, por esta vez, que a pós-graduação é em Música, mas Pop e é da v/ inteira responsabilidade!... E curtam, curtam muito a "apresentação dinâmica" (esta é boa e nova)!....

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Gerónimo / Jerónimo

Não é este Gerónimo, lider espiritual e guerreiro dos índios apaches, que quero aqui evocar, mas sim o operário português Jerónimo, também lider, mas do PCP.
Se aqui lembro também o Índio Gerónimo é simplesmente porque, de entre tantos Jerónimos, quando se fala do Jerónimo de Sousa, de imediato me ocorre a fantástica personagem do guerreiro apache.
Ontem, mais uma vez, o operário (como se auto-intitula) Jerónimo de Sousa, no "lado a lado" com o Super-Ratão Dr. Marocas, me surpreendeu : deu-lhe o troco certo e a tempo, mantendo um nível de discurso e uma desenvoltura intelectual que tomaria ter muito Doutor por extenso...
Não sou comunista, mas que admiro estes G/Jerónimos, lá isso é verdade !

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Saudação ao Brasil





















Em 1932, Berta Cardoso integrou a Companhia Maria das Neves numa digressão ao Brasil.
Nesses tempos do século passado, ir ao Brasil era ainda uma aventura; esta foi uma das primeiras idas de uma companhia de teatro ao Brasil, que abriu caminho ao intercâmbio cultural que hoje se verifica.
Na noite de estreia da revista, no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, Silva Tavares fez a Saudação ao Brasil (versos da sua autoria).
Mais informação em www.bertacardoso.com .

Eis um excerto da Saudação então feita:

Minhas senhoras, senhores:
Sinceramente lamento
não ter o claro talento
dos supremos oradores,
para, - em lugar de vos ler
esta humilde saudação-
com nervos, com emoção
e com alma, vos dizer
d'improviso, bem ou mal,
aquilo que, de momento,
me ditasse o pensamento.

... ...

Guerra Junqueiro e Bilac
escreveram, na mesma lingua
os seus versos imortais:
- esta lingua portuguesa,
toda cor, toda riqueza,
que já foi dos nossos Pais
e, ao tempo, há-de resistir
geração em geração!

Lingua que me torna irmão
de todos vós, sem mentir
nem ir contra velhas leis !
Língua de que sou vassalo,
porque com ela vos falo
e com ela me entendeis !

... ...

Que ninguém me leve a mal
quanto digo, porque o faço
unindo no mesmo abraço
O Brazil e Portugal,
- esforço traçado a cinzel
que, p'ra o contar todo inteiro,
só se o mar fosse o tinteiro
e o céu imenso, o papel !

quarta-feira, dezembro 07, 2005

JANELA DA VIDA













Foto retirada de
www.portugal.montranet.com





Para ver quanta fé perdida,
quanta miséria sem par
há nesta orbe atroz, ruim,
pus-me à janela da vida
e alonguei meu olhar
pelo vasto mundo sem fim.

Vi dar, aos ladrões, valor,
vi sentimentos perdidos
nas que passam por honradas,
vi cinismos vencedores,
muitos heróis esquecidos
e vaidades medalhadas.

Vi, no torpor mais imundo,
profundas crenças caindo
e maldições ascendendo.
Tudo vi, por este mundo,
Vi miseráveis subindo
homens honrados descendo.

... ... ...

Por isso, afirmo conciso
que, para na vida ter sorte,
não basta a fé decidida.
Para ser feliz é preciso
ser canalha até à morte
ou não pensar mais na vida.

Esta é outra letra de fado, da autoria de Carlos Conde, também proibida pela Censura, mas que, lá por isso, não deixava de ser cantada!
Incómoda para muita gente e tão actual que nem a dato...

terça-feira, dezembro 06, 2005

Cavalheirismo

25. FEV.1938
Armando Neves escreveu, a Censura proibiu, mas Alfredo Marceneiro cantou sempre que "os" apanhava de costas... Maravilhoso!

Diz uma história galante,
se é verídica não sei,
que, em certo país distante,
a Viscondessa era a amante
mais preferida do Rei.

Ora, o Visconde, coitado,
oitenta anos fazia
e o Rei, como era engraçado,
pôs-se a pensar, como é dado,
na prenda que lhe daria.

E, então, o Rei decidido
e, à falta de bons conselhos,
por presente divertido
mandou ao pobre marido
um cestinho de chavelhos.

E o portador, diligente,
com tal oferta abalou
e o Visconde, reverente,
recebeu o real presente
e ao portador exclamou:

-Como grato estou, enfim,
e a oferta não me desgosta
espere um pouco por mim
que eu vou ali ao jardim
buscar a minha resposta!

Foi colher rosas, sozinho,
às roseiras mais formosas,
com elegância e carinho
encheu o mesmo cestinho
de formosíssimas rosas.

E ao Rei as remeteu
com um bilhete, também.
Grande lição ao Rei deu
pois no bilhete escreveu:
CADA UM DÁ O QUE TEM!....

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Não quero outra companhia







Jardim da saudade
Técnica mista
Lúcia Hinz



Saudade
Sabendo que em tua ausência
prazer algum me conforta,
no momento em que saíste,
a saudade entrou-me a porta.

Andou em volta da casa,
como se ela sua fosse,
chegou pertinho de mim
puxou de um banco e sentou-se

- Estavas só e tive pena,
disse-me, então, a saudade
- Vamos esperar por ela,
podes chorar à vontade!

E não me larga um momento
toda a noite e todo o dia
Enquanto tu não voltares,
não quero outra companhia.


Esta palavra intraduzível, presente em tantas letras de Fado!
Neste caso, o poema é da autoria de Linhares Barbosa, música de Carlos Ramos

domingo, dezembro 04, 2005

QUEM DIRIA!

Ora adivinhem lá a identidade da personalidade citada:

"Ainda jovem, na fase em que tudo nos sorri, nada me fazia tão triste como a ideia de ter nascido numa época em que todas as honras e glórias eram reservadas a negociantes ou a funcionários do Governo."
"Eu não queria ser funcionário público.
Nem conselhos nem sérias admoestações (de meu pai) conseguiram demover-me dessa oposição."
"Eu queria ser pintor e de nenhum modo funcionário público.
E, coisa singular, com o decorrer dos anos aumentava sempre o meu interesse pela arquitectura."
"...Os obstáculos não existem para que capitulemos, mas para que os vençamos. ..."
"A fome participava em cada livro que eu comprava.
...
Batia-me constantemente contra a minha impiedosa amiga (fome). E no entanto, nesse tempo aprendi mais do que nunca.
... "
"Eu não sei o que naqueles tempos (em que fui operário) mais me horrorizava, se a miséria económica dos meus camaradas, se a sua grosseria espiritual e o baixo nível da sua cultura."
"Assisti a tudo isso (quadros de degradação no lar operário), em centenas de casos. No começo, sentia-me irritado ou enojado. Mais tarde compreendi toda a tragédia dessa miséria e as suas causas mais profundas.
Infelizes vítimas de péssimas condições sociais!"
"Ultimamente, eu tinha melhorado um pouco. A dor cruciante nos olhos diminuíra. Lentamente conseguia distinguir o que me rodeava. Podia alimentar a esperança de recuperar a vista, pelo menos ao ponto de alcançar, mais tarde, exercer qualquer profissão - o que eu não poderia era pensar mais em desenhar."
"Quando uma geração sofre de certos males que ela conhece e se contenta, como no caso do actual mundo burguês, com declarar levianamente que nada se pode fazer, está fatalmente condenada à destruição."
Um problema de visão que redundou num enorme problemão!...

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Alegre Manuel despedaçado












RETRATO DE MANUEL ALEGRE
Alegre Manuel alegre até à morte
que lindo nome para um homem triste
que lindo nome para um homem forte.

Alegre Manuel despedaçado
pela espada da língua portuguesa:
a palavra saudade a palavra tristeza
a palavra futuro a palavra soldado
Alegre Manuel aberto cravo
aos ventos da certeza.

Alegre Manuel aqui mais ninguém fala
tão alto como tu ninguém se cala
com essa dor serena e construída
não apenas de versos mas de vida.

Alegre Manuel as línguas do teu canto
ateiam-nos o fogo.
Neste lugar de lama e desencanto
tornas vermelho o povo.

J.C.Ary dos Santos (1970)


Lisboa e o Tejo
Acrílico sobre tela
Manuel Faia






RETRATO DO POVO DE LISBOA
É da torre mais alta do meu pranto
que eu canto este meu sangue este meu povo.
Dessa torre maior em que apenas sou grande
por me cantar de novo.

Cantar como quem despe a ganga da tristeza
e põe a nu a espádua da saudade
chama que nasce e cresce e morre acesa
em plena liberdade.

É da voz do meu povo uma criança
seminua nas docas de Lisboa
que eu ganho a minha voz
caldo verde sem esperança
laranja de humildade
amarga lança
até que a voz me doa.

Mas nunca se dói só quem a cantar magoa
dói-me o tejo vazio dói-me a miséria
apunhalada na garganta.
Dói-me o sangue vencido a nódoa negra
punhada no meu canto.

J.C.Ary dos Santos (1970)


Nota:
É nosso o sublinhado do verso "até que a voz me doa" que evoca o fado, provavelmente mais conhecido de Maria da Fé, "Cantarei até que a voz me doa", com música de Fontes Rocha e cuja letra se deve a José L. Gordo, marido da fadista.

quarta-feira, novembro 30, 2005

ABDICAÇÃO
















Toma-me, ó Noite Eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho... Eu sou um Rei
Que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei,
E meu ceptro e coroa - eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços.

Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas dum tinir tão fútil -
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a Realeza, corpo e alma,
E regressei à Noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

Fernando Pessoa (1913)

sábado, novembro 26, 2005

Isto é o Porto












"...A Empresa Piero sabendo que a famosa cultora da Canção Nacional se encontrava de passagem nesta cidade teve a boa ideia de a convidar a comparticipar do êxito da revista «Isto é o Porto», o que só pode ser durante poucos dias , a partir de hoje."
Jornal de Notícias, 19.04.1948

sábado, novembro 19, 2005

A DIVINA
















Berta Cardoso, na Viela



Berta Cardoso, a Voz de Oiro do Fado, teve sempre um particular cuidado na escolha do seu repertório que, como se sabe, é vastíssimo. Dado o êxito que qualquer criação sua alcançava (lembremos, só como exemplo "Cruz de Guerra" e "Tia Macheta"), os poetas não só compunham intencional e expressamente para ela (lembre-se os fados "Cinta Vermelha" e "Homem da Berta"), como também lhe ofereciam muitas letras na esperança que ela as cantasse, o que nem sempre vinha a acontecer.
De facto, o espólio de Berta Cardoso, depositado no Museu do Fado, contém um número considerável de letras, que lhe foram oferecidas pelos mais variados poetas, e que ela nunca cantou.
Outras letras, contudo, terá pago, de resto como as pagavam as e os outro/as fadistas . Se assim não fôra, de que viveriam os poetas? Provavelmente, não do ar!; de facto, alguns eram assalariados, por isso não dependiam tanto da arte; mas, para outros, a criação de textos escritos ou musicais eram o único meio de subsistência. Se Berta Cardoso "pagava generosamente" as letras que decidia cantar, como refere o Senhor Professor Doutor Rui Vieira Nery, a páginas 210 do seu livro "Para uma História do Fado", editado pelo Público, isso só pode ser motivo de rejúbilo e aplauso, atestando a sua fama de boa pessoa; mais prova que Berta Cardoso não se servia da fama que tinha para explorar os que necessitavam, pagando pela tabela "normal"; antes, como podia, pagava "generosamente" aos seus poetas de eleição, que era uma forma de compartilhar o sucesso...
E não, Senhor Doutor!, não seria pelo facto de pagar generosamente que Berta atraía muitos dos melhores poetas do meio, como o senhor advoga...
De entre os documentos que deixou e de que nunca fez alarde ou uso para ganhar ou conseguir o que quer que fosse, Berta guardava este papel, qua abaixo transcrevo, escrito pelo poeta e compositor musical Júlio de Sousa, a quem se devem, entre outros, os conhecidos fados : Saudade vai-te embora, Não se morre de saudade, Mau olhado, Caminhos, Não digas a ninguém, Senhor perdoai, Vim para o fado, Loucura e tantos outros interpretados por vários fadistas, entre eles Berta Cardoso, Fernanda Maria, Beatriz Ferreira, Flora Pereira, Natércia da Conceição, Carlos do Carmo...
Que cada um tire as conclusões que entender!...

Quando escrevo uma canção
Penso em ti, na tua voz.
Tenho cheio, o coração
De mil canções, para nós...

És a Sereia da "Viela"
Berta Cardoso, "A Divina"
Na minha vida és Aquela
Que a minha vida domina.

Mando os versos prometidos
"Que prometeste" cantar
Se Eles não forem esquecidos
Eu te "prometo" voltar.

Minha Exmª Amiga
Hoje é em verso que lhe escrevo. As nossas "categorias" não permitem a prosa banal...
Um grande abraço de admiração afectuosa do POETA DAS DÚZIAS
Júlio

sexta-feira, novembro 18, 2005

VAMOS DESPOCOTIZAR ?

Eu não quero ser um Pocotó !... E você?

Vale a pena ir a http://wmv.cc/luciano/videos.htm para perceber do que estou a falar.

Adira à Campanha - "Vamos Despocotizar Portugal"

Contra a mediocridade, LUTAR! LUTAR!

Vejo cerejas, sinto saudade!


Mais um fado, com letra de Linhares Barbosa e música de F. Carvalhinho, do repertório de Maria Pereira, mas também gravado por Mariana Silva.






Brincos para brincar

Quando eu era pequenina,
para me enfeitar as orelhas,
minha mãe punha-me, às vezes,
quatro cerejas vermelhas.

E toda tola,
lembro-me ainda,
ia para a escola,
vaidosa e linda.
Brincos vermelhos,
a dar que dar,
pedia espelhos
para me mirar.
Diziam todas
-Que bem lhe fica,
lembra, nos modos,
menina rica!
Via-os, revia-os
como riqueza,
depois comia-os
à sobremesa.

Um dia, as mais raparigas,
filhas como eu da pobreza,
puseram-me nas orelhas
dois brinquinhos de princesa.

Depois, mais tarde,
Vi-te e amei-te.
Deste-me brincos
d'ouro de lei.
Bendito sejas!
mas, na verdade,
vejo cerejas,
sinto saudade.

segunda-feira, novembro 14, 2005

Não pôde cantar, chorou!







O Velho Guitarrista
P. Picasso










Velho Fadista
Na Mouraria, uma noite, a fadistagem
cantava e ria, numa sã camaradagem
Saudosamente, ali estava ao nosso lado,
velho e doente, um fadista já cansado.

Quando cantei, dediquei-lhe, no Corrido,
uns versos em que falei num fadista já esquecido
Ele escutou, porém, notei-lhe no rosto
o seu amargo desgosto, quando o passado lembrou.

Ao terminar, ele, sorrindo com mágoa,
veio-me abraçar, com os olhos rasos de água
e, qual demente, desapertando a samarra,
nervosamente, abraçou uma guitarra.

A banza trina e ele encetou com fervor
uma cantiga em surdina no velho fado Menor
Não terminou, pois, com a alma em pedaços,
veio cair em meus braços, não pôde cantar, chorou!

(Letra: A.Vilar da Costa/ Música: Fado Modesto; Voz: Alcindo Carvalho)

Amoridades















Celebrando a lua cheia

sábado, novembro 12, 2005

Mais um MALHOA


Festejando o S. Martinho ou Os Bêbados Posted by Picasa

Por esta hora, os festejos já devem ter terminado. Ficaram todos num bonito estado, ficaram! Eu bem que vos alertei para as dietas saudáveis, mas quê!... Triste fado!

sexta-feira, novembro 11, 2005

Dietas saudáveis


Colesterol Posted by Picasa

Hoje, dia de S.Martinho, nada de alarvidades à mesa. Evite a carne de porco gorda, os queijos de Serpa e da Serra, também não deve abusar da pingoleta e nem daqueles horríveis doces de ovos... É! deixe isso para os que não se importam de ter níveis de colesterol indizíveis!
Abuse dos vegetais- dos tomates, das cenouras, dos bróculos, dos rabanetes; siga as instruções da imagem...Faça uma dieta à base de vegetais para evitar o "mau" colesterol, beba muita água e deixe-se de festejos...
Vê como os vegetais se ajeitam? !...
A propósito, sabem como é que os matemáticos definem sexo? Segundo eles, é uma equação perfeita - a mulher coloca a unidade entre parêntesis, eleva o membro à potência máxima e extrai-lhe o produto, reduzindo-o à sua mínima expressão.
Bem visto!
Até amanhã! Agora tenho que ir ali à adega ver se já abriram o "depósito" da água...

quinta-feira, novembro 10, 2005

Lisboa, Casta Princesa



O "Fado de Lisboa", com letra e música de A. Leal e R. Ferrão, que foi do repertório de Ercília Costa, na igualmente notável interpretação de Mariana Silva, que o gravou com o nome de "Lisboa, casta princesa"

Lisboa, Casta Princesa,
Que o manto da realeza
Abres com pejo
Num casto beijo;
Lisboa tão linda és,
Que tens de rastos aos pés
A majestade do Tejo.
Lisboa das Descobertas
De tantas terras desertas
Que deram brado
No teu passado
De beleza tens a coroa
Velha Lisboa
Da Madragoa
Quantos heróis tens criado!

Sete colinas
São teu colo de cetim
Onde as casas são boninas
Espalhadas num jardim
E no teu seio
Certo dia foi gerado
E cantado
Pelo povo sonhador
O nosso fado.

Lisboa, tardes doiradas
Dos Domingos, das toiradas
Em que luzia
A fidalguia;
E em que esse sangue valente
Mostrava que havia gente
A quem a morte sorria.
Lisboa, terra de fama,
Tens a tristeza de Alfama
E a poesia
Da Mouraria.
E nos teus velhos recantos
Eu sei lá quantos
Tu tens encantos
Dos tempos da valentia!

terça-feira, novembro 08, 2005

O Fado em África


Berta Cardoso, no Lobito Posted by Picasa

Em 29 Julho de 1933, integrando o Grupo Artístico de Fados, partira para Luanda a bordo do "Niassa".
Mais informação no site www.bertacardoso.com

domingo, novembro 06, 2005

O FADO É APENAS ISTO


Nónó, Casa de Fados Posted by Picasa

Para lembrar hoje, na voz de Júlio Vieitas, letra:D.R., música:Fado Zé Negro

O fado é um estado d' alma
misto de dor e tristeza
onde a saudade se agarra
Enquanto a dor não acalma
a alma fica suspensa
nas cordas duma guitarra.

Vejam bem porque razão
um fadista por excelência
não canta bem quando quer
Canta, sim, se o coração
vibra e sente a influência
dos olhos de uma mulher.

São nesses belos momentos
em que as almas torturadas
se encontram na mesma luta
Expandindo sentimentos
como setas apontadas
ao coração de quem escuta

De afirmar, nunca desisto
o fado é puro lamento
num coração magoado.
O fado é apenas isto
onde não há sofrimento
jamais pode existir fado.

terça-feira, novembro 01, 2005


Corações Posted by Picasa

"Quem tenha dois corações
me faça presente dum
Que eu já fui dona de dois
e já não tenho nenhum!"

domingo, outubro 30, 2005

A Injustiça


...debaixo do sol... Posted by Picasa

"Voltei-me e vi que, debaixo do sol, a corrida não é para os ágeis, nem a batalha para os bravos, nem o pão para os prudentes, nem a riqueza para os inteligentes, nem o favor para os sábios:
Todos estão à mercê das circunstâncias e da sorte.
O homem não conhece a sua própria hora: Semelhante aos peixes apanhados na rede fatal, aos passarinhos que caem no laço, assim os homens são surpreendidos na hora da adversidade, quando ela cair sobre eles de improviso.
Vi também, debaixo do sol, este facto, que foi para mim uma grande lição:
Havia uma pequena cidade, pouco populosa, contra a qual veio um poderoso rei, que a sitiou e levantou contra ela grandes fortificações. Ora, encontrava-se nela um pobre homem, sábio, cuja sabedoria salvou a cidade. E, contudo, ninguém mais se lembrou deste pobre homem. Por isso, disse: «A sabedoria vale mais que a força, mas a sabedoria do pobre é desprezada e não são ouvidas as suas palavras»."
Palavras do Eclesiastes

sábado, outubro 29, 2005

TEATRO DE REVISTA


Berta Cardoso (1911-1997), na revista "Manda Ventarolas"Posted by Picasa
1941 - Teatro Maria Vitória
Uma das maiores fadistas do séc XX, que alcançou enormes sucessos, também como actriz.
Na "Canção do Sul ", de 1 de Dez. de 1941, pode ler-se: "Berta Cardoso hoje é aplaudidíssima sem tibiezas ou «claques», na revista «Manda Ventarolas». Para isto muito contribui a intuição natural de Berta para a arte dramática, e o seu grande gosto em acertar nos números que lhe distribuiram. Nas imitações, faceta artística de grande relevo, Berta Cardoso revela-se uma actriz de recursos, e naquela parte em que Maria das Neves recita pela sua boca, define-se uma vocação. No fado, seu estilo continua a ser rico e pujante. Sobrepondo-se à orquestra, por vezes, sua voz enche o palco, o teatro, enfim, a alma de todos nós."
É impossível dizer melhor : "sua voz enche a alma de todos nós" !
Pode ouvir essa voz e saber mais acerca de Berta Cardoso em: www.bertacardoso.com
O download dos trechos musicais é um pouco lento, mas vale a pena esperar (digo eu...)

sexta-feira, outubro 28, 2005

ALFAMA NÃO CHEIRA A FADO...


Alfama, por Francisco Smith (1881-1961) Posted by Picasa
óleo sobre tela

QUANDO LISBOA ANOITECE
COMO UM VELEIRO SEM VELAS
ALFAMA TODA PARECE
UMA CASA SEM JANELAS
AONDE O POVO ARREFECE.

É NUMA ÁGUA FURTADA
NO ESPAÇO ROUBADO À MÁGOA
QUE ALFAMA FICA FECHADA
EM QUATRO PAREDES DE ÁGUA
QUATRO PAREDES DE PRANTO
QUATRO MUROS DE ANSIEDADE
QUE À NOITE FAZEM O CANTO
QUE SE ACENDE NA CIDADE
FECHADA EM SEU DESENCANTO
ALFAMA CHEIRA A SAUDADE.

ALFAMA NÃO CHEIRA A FADO
CHEIRA A POVO, A SOLIDÃO
A SILÊNCIO MAGOADO
SABE A TRISTEZA COM PÃO
ALFAMA NÃO CHEIRA A FADO
MAS NÃO TEM OUTRA CANÇÃO.

J.C. Ary dos Santos (1937-1984)

quinta-feira, outubro 27, 2005

ILUSÃO


Velhos Posted by Picasa
Se simplesmente olhar, não vê. Se olhar atentamente, vai ver para além da ilusão...

(imagem retirada de www.rainhadam.com)

domingo, outubro 23, 2005

Chavela Vargas


Chavela Vargas, a lendária intérprete mexicana Posted by Picasa

Para além do fado, mas também fado; outra maneira de cantar o Fado...
A minha homenagem à autenticidade, raça, coragem, sentimento, emoção daquela de quem Pedro Almodovar disse :
"Me hubiera gustado conocer a Billie Holiday, Edith Piaf, La Niña de los Peines, Bola de Nieve, La Lupe...pero he conocido a CHAVELA VARGAS, que es como la suma de todos ellos.
Conocerla y volver a escucharla ha sido una de las experiencias mas importantes de mi vida."
Passe um resto de Domingo fantástico!

sábado, outubro 22, 2005

"a vida é uma cantiga que nem toda a gente canta"

RECORDAÇÕES DO PASSADO

(de Frederico de Brito e Vianinha)

Concordo que me falem na Severa
pois nos seus tempos já era
mais que rainha do fado.
E entendo dever lembrar outros mais
esses nomes imortais
dos fadistas do passado.

Tecer a glória duma Cesária fadista
duma Maria Vitória ou duma Júlia Florista
do Armandinho,
fadistas duma só crença,
Marceneiro e Machadinho
Joaquim Campos e Proença.

Dos poucos nomes que disse
não posso, mesmo que queira,
esquecer a Maria Alice, Maria Emília Ferreira.
Depois, nesta hora incerta, lembrar a Ercília Costa,
Amália, Hermínia e Berta
das quais tanto o povo gosta.

E agora, quando os mais novos acordam,
são os velhos que recordam
como em tempos era o fado.
E os de hoje, de vida alegre e louçã,
hão-de chorar amanhã
com saudades do passado.

Ninguém entende, nesta aparência bizarra,
como é que a gente se prende
às cordas duma guitarra.
Ninguém maldiga o fado que nos encanta
que a vida é uma cantiga
que nem toda a gente canta.

E quando eu fôr mais velho hei-de entreter-me, bem sei,
ensinando aos meus rapazes os fados que já cantei.
Talvez que vocês apontem
as nossa noites de agrado
que lhes digam, que lhes contem
que eu também cantava o fado.

sexta-feira, outubro 21, 2005

Aniversário


BERTA CARDOSO, no Faia, 21.OUT.1992 Posted by Picasa

Hoje, Berta Cardoso faria 94 anos.
Quando completou 81 anos, houve festa no Faia e Berta cantou e encantou.
Que saudades!

terça-feira, outubro 18, 2005

FADO e FADAS


FADA Posted by Picasa

Não, meu querido, absolutamente não! Fado não é o masculino de fada . O que eu disse é que até fada tem seu fado, entendido? E que o fado bem está a precisar de uma fada madrinha, lá isso está...

segunda-feira, outubro 17, 2005

Fado no S. Luiz


Eu já lá estou!... Posted by Picasa
Nem morta, ia faltar.
O que eu gosto de ouvir a Celeste Rodrigues! Voz pequenina, é verdade, mas voz sofrida, voz de fado, de vida vivida, que transmite emoções...
Ouvir também a Argentina e o Alcindo cujo registo de voz lembra o Carlos Ramos. . .
Acerca da "encenação minimalista que desloca o Fado puro para uma sugestiva e surpreendente solução cenográfica", a mim, que não percebo nada disto, o que a imagem apresentada me faz lembrar é uma cena de Flamenco num "tablao" Andaluz . . . e não só... Nada de novo, mas mesmo nada, muito menos surpreendente.
O que me surpreenderia agradavelmente era que, da Madeira, "alguém"chegasse e aparecesse por lá a ver o espectáculo, no dia 21. Eu estarei na 1ª fila a ver se chega... para lhe contar uma história muito engraçada, passada na Parreirinha, há muitos anos, com um cliente do Norte, episódio esse que se relaciona com o nome do espectáculo "Cabelo branco é saudade" e que bem ilustra o que então era o ambiente de uma casa de fados.
Até lá!

Sabes bem...


Aparência, de Fernanda Pissarro Posted by Picasa

... que és uma das minhas favoritas!
Aquele abraço.