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sábado, julho 01, 2017

É LOUCURA, QUE EU BEM SEI



O verbete de hoje é dedicado a MARIAMELIA, actriz e fadista, criadora daquele fado tão simbólico que, ou com a letra original (do Britinho e de Júlio de Sousa) ou outra, quase todos os fadistas acabam (ou começam) por cantar e integrar no seu repertório - o LOUCURA.  O autor da música é o multifacetado artista Júlio de Sousa, autor de outros fados que igualmente continuam a ouvir-se (e a agradar) na boca dos mais antigos e dos mais modernos fadistas. Razão bastante para os recordar e homenagear

quarta-feira, março 06, 2013

"LOUCURA"


D.L., 1933

Gostaria de não me tornar enfadonha por vir lembrar, uma vez mais, esse "rapaz, pálido e romântico, de camisa negra à italiana, que pouco fala e aparece, sem camaradagens que o exaltem, nem amigos que o façam triunfar", mas, se o faço, é porque ele "merece, como poucos, a classificação de artista, hoje tão banalizada e desfigurada."... Um artista polimórfico, um esteta, um solitário.
"A sua alma profunda, de silenciosa sensibilidade", o seu talento, legaram-nos fados que continuam a ser verdadeiros êxitos e, se é possível dizê-lo, autênticos ex-libris fadistas.

Dos que já aqui lembrei, volto a recordar o "Fado da Loucura", de que Mariamelia, sua irmã, foi a criadora e gravou, fado cuja letra é de Frederico de Brito, mas cujo refrain é de Júlio de Sousa, igualmente autor da música. Como também já referi em verbete anterior, este fado veio a tornar-se um enorme êxito, não pela voz da sua criadora, mas pela de Berta Cardoso, que "fez do «Fado da Loucura» uma verdadeira loucura" e, por isso, lhe chamaram "A loucura dos fadistas". Depois dela, muitos outros/as cantaram esse fado e cantam ainda. Relembremo-lo, porém, nas interpretações de Lucília do Carmo e de Fernando Maurício.











Ora acontece que, dado o espantoso êxito obtido, Júlio de Sousa terá escrito, para Berta Cardoso, outra letra para esta sua música em que a fadista era exímia. Berta foi, pois, não só a grande especialista do Fado da Loucura, como igualmente a criadora desse fado com a letra que muitos fadistas também têm cantado e gravado e que aqui vamos lembrar interpretado por Mariza e por Carlos Zel




Depois, e à semelhança do que acontece com muitos outros fados, outras letras incorporaram a música do "Loucura"; por exemplo, o Britinho, co-autor da letra original, como já referi, escreve, para a Mª Alice, a letra "Vida Triste", que podem ouvir aqui.

Mas, a verdade é que, até hoje, quando se fala no "Loucura" ou no "Fado da Loucura" se associa de imediato a este fado as letras que Júlio de Sousa escreveu, seja a sós, seja em co-autoria. E interessante é verificar que, quer o "É loucura...", quer o "Sou do fado...", têm vindo a fazer parte do repertório de grande parte dos fadistas e, mesmo quando isso não acontece, todos acabam por ceder à tentação de cantá-lo, como se fosse, digamos assim, um fado obrigatório. De facto, haverá letra que melhor apresente um/a fadista ?

Sou do fado como sei, / Vivo um poema cantado / Dos fados que eu inventei.

«É Loucura» oiço dizer / Mas bendita esta loucura / De cantar e de sofrer

Assim parece ser, mesmo para os estrangeiros que cantam o Fado



(Verbete de 20.05.2011 reeditado)

quinta-feira, junho 07, 2012

Os 2 "Fado da Azenha"

Este é um dos mais conhecidos fados tradicionais, com letra e música da autoria de J. Frederico de Brito, que o escreveu para o repertório do cantador Vitor Daniel

G.P.1931

Ao longo dos anos, foi sendo interpretado e gravado por diversos cantadores e cantadeiras, ora com a letra original, ora com outras letras, 

Curioso é o facto de ter, o próprio Frederico de Brito, escrito uma outra letra, com o mesmo motivo, para esta música e para o repertório de BERTA CARDOSO. Com sorte, este foi um dos poucos discos que "escapou" e se encontra em bom estado... Aqui fica este quase inédito, a recordar essa voz que no Fado foi reconhecida como a "Voz d'oiro", acompanhada pelos igualmente "Instrumentistas d'oiro" ARMANDINHO e GEORGINO.
Pena é que, até agora, ainda se não tenha reeditado esta Voz que, no Fado, foi um caso!...



(Verbete reeditado de 26.04.2012)

terça-feira, janeiro 31, 2012

A "TOCA"


Plat.

E, quem pertence aos Fiéis de Deus, não fará do Fado uma indústria...

Meu Deus, que de «ateus» há por aí !...

(A "Toca" situava-se no Bairro Alto e, para além do seu proprietário, Carlos Ramos, guitarrista e cantador, faziam, então, parte do elenco: o guitarrista Jaime Santos, os violistas Alberto Correia e Alfredo Costa e as cantadeiras Maria Rosa Rodrigues, Natércia da Conceição e Noémia Cristina; era director artístico, Filipe Pinto.) 

sábado, junho 04, 2011

"A FORMIDÁVEL ALMA POPULAR"


"...Mas então isto é a apologia e o elogio da facada e da miséria, da rufiagem e do vício, da rotina e da imundície, perguntará o leitor? Não, não é. É apenas o elogio da cor, que subverte o anátema à miséria social; a apologia do caracter forte do gentio miudo que mantem o pitoresco e o sabor, que não há na gente moderna nem nas Avenidas Novas, e que só existe e perdura, arreigado como a própria fatalidade nisso a que o grande Cesário Verde chamava: «a formidável alma popular»" Matos Sequeira (para ler aqui)



("Meu Bairro Alto" - Intérprete: Ana Rosmaninho; Autores: Carlos Rocha e Frederico de Brito)

quinta-feira, junho 03, 2010

ANA MOURA - "Caso arrumado"

VÍDEO DE HOMENAGEM


Não te via há quase um mês / Chegaste e mais uma vez / Vinhas bem acompanhado / Sentaste-te à minha mesa / Como quem tem a certeza / Que somos caso arrumado // Ela não me queria ouvir / Mas tu pediste a sorrir / O nosso fado preferido / Fiz-te a vontade, cantei / E quando à mesa voltei / Ela já tinha saído // Não é a primeira vez / Que começamos a três / Eu vou cantar e depois / O nosso fado que eu canto / É sempre remédio santo / Acabamos só nós dois // Eu sei que tu vais voltar / P'ra de novo te livrar / De um caso sem solução / Vou cantar o nosso fado / Fica o teu caso arrumado / O nosso caso é que não.

Ana Moura interpreta, de Manuela de Freitas, no Pedro Rodrigues, este "Caso arrumado", cuja letra, tão curiosa quanto interessante, vale a pena aqui patentear, até mesmo porque reflecte, de certo modo, uma realidade tantas vezes vivida - a do "caso a três", remediado por um certo "nosso fado" que tem o poder de anular, sempre que necessário, o indesejado terceiro membro da relação e repôr o "nosso caso" a dois, eternamente arrumado... o reconhecimento e aceitação da infidelidade, sem dramatismos, a ajuda até na resolução desse deslize... isto é muito fadista! Lembra-me o "Fado Antigo", de Berta Cardoso, cuja letra, do Linhares, diz assim "...Eu ando cheia de ciúme / pelo meu bem que está ausente / É o rapaz mais valente / e também o mais infiel / Mas não me digam mal dele / Que eu não sou nenhuma santa..." Lindo! Quantas vezes ouvimos esta confissão?... Geralmente, os outros é que são infiéis!; nós, de santo/as, só nos falta o altar!...
Mas, o mais intrigante neste fado da Ana Moura é que, ao ouvi-lo, sempre me acorda a lembrança de um fado que ouvi na poderosa e inolvidável interpretação de Berta Cardoso e que, creio, pertence ao seu repertório, mas que apenas tenho na também superior versão de Fernanda Maria, "Candeia", de Frederico de Brito e J. Campos; oiçam lá, que vale a pena, embora o estado desta cópia não seja já dos melhores...

Não o via há tantos dias / Tinham dado avé Marias / Na capelinha da aldeia / Esperava por ele e não vinha / E como estava sozinha / Fui acender a candeia // Gemia o vento lá fora / Passa uma hora, outra hora / E ao romper da lua cheia / Ei-lo que vem meigo e doce / E fosse lá pelo que fosse / Tinha mais luz a candeia // Mil beijos, mil juramentos / E nesses loucos momentos / Toda a minha alma se enleia / Quis mostrar-me o amor seu / E jurou que era só meu / Pela luz daquela candeia // Mas vi-lhe a boca a tremer / Eu mesma não sei dizer / O que me veio à ideia / É que a verdade realça / Essa jura era tão falsa / Que se apagou a candeia.
E então?!... Se isto tem alguma coisa a ver!?... 'Tá bem, mas eu acho que sim, correcto? Há aqui umas associações fundamentais a que nem todos chegam, mas porém... é bom até, de vez em quando, dizer umas certas alarvidades... dá estatuto! Ah, pois é! A propósito, logo, lá te espero, na Procissão. Já sabes, se estiver com companhia, falamos depois... Claro, deixa lá... Isto, do Fado, é tramado, pá! Já estava aqui a lembrar-me doutro... os fados são como as cerejas Este ano estão um bocadito acres, p'ra meu gosto Não é isso... vêm uns atrás dos outros Ah, quem diria... como tu estás!... Eu, não é?! Ah, pois é!... :-)

terça-feira, março 30, 2010

Ai! O amor das do Fado!...

Ainda as Divas... cujo amor é tema de Fado, para além das próprias o serem igualmente
Um mote de Júlio Dantas, glosado por Frederico de Brito.

Ai! O amor das do Fado!...
Não há nenhum como o delas:
baixo, que arrasta no chão,
alto, que chega às estrelas!
*
Amor que, às vezes, nos prende
numa prece ou numa praga;
e, afinal, nunca se vende!
Ou se entrega,... ou não se rende,
p'ra se dar, às furtadelas:
Um motivo p'ra novelas,
Um romance que dá brado!
Ai! O amor das do Fado,
não há nenhum como o delas!
*
Esse amor que é riso e pranto
e que tem de património,
ora a capa do demónio,
ora a túnica dum santo,
tanto pode ser encanto,
como barro das vielas;
tanto é gelo a arrefecê-lo,
como é lava de vulcão:
baixo, que arrasta no chão,
alto, que chega às estrelas!

sábado, janeiro 09, 2010

IVETE PESSOA - "Dona Fortuna"

VÍDEO DE HOMENAGEM

OU

http://www.youtube.com/watch?v=ZMbFDOdh3ck

É com imensa Fé e enorme Esperança que a todos vaticino Fortuna, Sorte e Felicidade em 2010! Mas, atenção!, não se esqueça do que bem lembra Frederico de Brito, na voz de Ivete Pessoa: "A Fortuna quando vem / Nunca espera por ninguém / Chega só na hora / Vai-se logo embora" ... Por isso, se a encontrar por aí, acompanhada da tal senhora mais forte, que se chama Sorte, não as deixe fugir... Até mesmo porque a Sorte, diz o povo, bate à porta ainda menos vezes que o carteiro!...

terça-feira, outubro 13, 2009

BERTA CARDOSO na Eradogramophone









O Canal de eradogramophone brindou-nos agora com este belíssimo vídeo de dois êxitos de BERTA CARDOSO - "A Enganada", da autoria de Silva Tavares e de Armando Freire e "Último Pedido" ou "Volta", como ficou mais conhecido, de Raul Pinto e de Frederico de Brito, ambos registos fonográficos em 78rpm.


Em 1933, Berta Cardoso é primeira página d' "A Guitarra de Portugal", onde se anuncia uma tournée da gloriosa cantadeira por terras de África e se publica, precisamente, a letra do fado "Volta" e de outro seu enorme êxito "Não Voltes"


sábado, julho 25, 2009

LINA MARIA ALVES - "Fado da Vida"

Lina Maria Alves deixou-nos em 2007.
Conheci-a na "Parreirinha", de cujo elenco fez parte durante cerca de 40 anos.
Aqui fica a minha homenagem à criadora de "O cigano é só meu", provavelmente o seu mais conhecido sucesso.
Contudo, hoje recordo-a cantando este "Fado da Vida" da autoria de J. Frederico de Brito.

VÍDEO DE HOMENAGEM

domingo, março 01, 2009

FILIPE DUARTE - "Não digam ao Fado"


"Não digam ao Fado / Com ar de disfarce / Que é baixo, que é reles / Que não tem valia / Que aprenda ciências / Que vá doutorar-se / Que seja poeta / Mas doutra poesia..."
sábias palavras estas, de Frederico de Brito, o Britinho, a quem também se deve a música deste fado, interpretado por Filipe Duarte
Por favor, "Não digam ao Fado que vá doutorar-se"; já temos suficientes doutores e catedráticos do/no Fado!....... só nos falta Britinhos, Linhares , Condes, Regos, Bottos, Neves...
VÍDEO DE HOMENAGEM

sábado, dezembro 13, 2008

MANUEL FERNANDES - "Ambiente do Fado"

Plat.

Com este interessante fado, da autoria de Frederico de Brito e de Adelino dos Santos, lembro hoje o cantador Manuel Fernandes
Vídeo de Homenagem

Nota biográfica:
Nasceu em Lisboa a 9 de Dezembro de 1921.
Começa a cantar como amador nas Sociedades de Recreio aos 15 anos.
Estreia-se em 1938 na verbena de Santa Catarina, passando mais tarde para o Solar da Alegria, Mondego e Luso.
Com a o aparecer das Casas de Fado é por lá que costuma cantar acabando a sua vida artística na Severa. Cantou em Angola , Estados Unidos e Brasil onde grava o seu primeiro disco.
Em 1957 é o representante da música portuguesa no Festival de Música Latina em Génova.
Fez parte do elenco da peça teatral “A Rosinha dos Limões” no Coliseu
Foi atracção na peça “Muitas e Boas” no Teatro ABC .
A 4 de Maio de 1962 comemora as suas Bodas de Prata artísticas no Pavilhão dos Desportos, sendo a comissão organizadora composta por Filipe Pinto e Alfredo Marceneiro.
Dos muitos fados que cantou, houve um que embora não fosse da sua criação cantava com muito sentimento, era o fado “Vassourinha”.
(in Lisboanoguiness)

domingo, agosto 24, 2008

CARLOS DO CARMO - "As três normas"


Este fado, cantado por Carlos do Carmo (1), na música do Fado da Azenha, de Frederico de Brito, tem uma magnífica letra de Carlos Conde, que evoca os três Macacos Sábios - Mizaru, Kikazaru e Iwazaru - e a sua mensagem de saber viver.
Diz assim:
"Para quem queira viver
Sem ralhar, sem discutir,
Três normas tem de adoptar
É ter olhos e não ver
Ouvidos e não ouvir
E ter boca e não falar"
... ... ... ...
É receita que dá, por certo, muito resultado, mas não é para todos. Antes de mais, é preciso ter temperamento ou feitio ou qualquer coisa assim para fingir que não se vê e não se ouve e... não falar; depois, é necessário muitos anos de aturado treino e uma grande dose de fdp... para passar a vida a fazer como o cavalo na parada... Mas há quem o faça e muito bem e fica, assim, sempre bem visto. Poderá ser até um tipo de sabedoria macacoide, mas que dá um resultadão, todos sabemos que dá, não é? "Caladinho é que eu sou lindo!" ou "O calado vence tudo", fazem parte do mesmo ideário, até mesmo porque "quem mais fala, mais erra" e, por isso e outras coisas mais, eu vou já calar-me para nem sair mais asneira nem entrar mosca; mas não sem antes aqui deixar estas palavras do poeta:
"Não fales, não sejas louco
Estuda o mundo de forma
A que o leves de vencida
Saber muito e falar pouco
Faz parte da boa norma
Com que se vence na vida"
divirta-se e medite que eu, eu vou a banhos!...

(1) Carlos do Carmo interpretou o "Fado da Saudade", no filme "Fados" do realizador espanhol Carlos Saura, fado distinguido com o Prémio Goya 2008, na categoria de melhor canção ORIGINAL. Um fado da autoria de "Fernando Pinto do Amaral e Joaquim Campos", de acordo com a notícia em http://noticias.sapo.pt/info/artigo/805948.html , que remata com a seguinte frase premonitória "De novo apenas poderá haver o facto de ser um fado a roubar o reconhecimento para a melhor canção original."
Relativamente à autoria da música, para além de Joaquim Campos, há também quem diga que se deve a Alfredo Marceneiro, o Fado Versículo, e quem defenda que aquele fado é simplesmente o Menor, embora com complemento de versículo, mas um versículo (tecnicamente) diferente... São, claro, opiniões de catedráticos do Fado e eu, que do fado só sei quanto o aprecio, fico calada; precisamente!... como o macaco! Mas, como estou só fingindo que não ouço, não vejo e não sei, sempre vou repetindo "Menor ou Versículo, original, é que esse fado não é e, esse, é o cerne da questão".
Voltamos a encontrar-nos na "rentrée", combinado?

VÍDEO DE HOMENAGEM

domingo, junho 15, 2008

HERMÍNIA SILVA - "Telhados de Lisboa"



"É indiscutível que Hermínia Silva foi um ídolo do povo, que a elegeu, a amou e venerou, e ela correspondeu. ... Eu adorei a Hermínia", diz Vítor Duarte Marceneiro, no seu livro Recordar Hermínia Silva, uma monografia em jeito de homenagem.

Creio que muitos serão os que, como Vitor Marceneiro, dirão "Eu adorei a Hermínia"! Eu, já disse!

Apaixonada pela sua cidade, vamos recordá-la interpretando um dos seus enormes êxitos, o fado "Telhados de Lisboa", cuja música é, curiosamente, da autoria de seu filho, Mário Silva, e a letra de Frederico de Brito.

VÍDEO DE HOMENAGEM


Do blog http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/ , da autoria de Vítor Marceneiro, a nota biográfica desta notável fadista:
"Hermínia Silva nasceu às 18 horas do dia 23 de Outubro de 1907, no Hospital de São José, freguesia do Socorro, era filha de Josefina Augusta, que morava à data do parto na Rua do Benformoso, 153, no 1.º andar, freguesia dos Anjos, em Lisboa. (1)

(1) Conforme Acento de Nascimento n.º 704, do ano de 1907, na 8.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa.
Sua mãe, chamava-se Josefina Augusta, era natural de Samora Correia. Teve uma irmã mais velha que tinha o nome de Emília e um irmão que se chamou Artur Moreira.

É com palavras da própria Hermínia, com a sua simplicidade, a sua graça no jeito tão pitoresco que ela tinha a exprimir­‑se, que aqui se transcreve parte da sua biografia:
Julgo que nasci numa casa ali para os lados do Campo de Santana (2), numa travessa, cujo nome não recordo, e não recordo porque saí de lá apenas com oito meses. A verdade é que não tenho quaisquer recordações do tempo que mediou entre o meu nascimento e a idade escolar, mas creio que fui uma criança absolutamente normal, com todas as gracinhas, «perrices» e evoluções que são comuns a todas as crianças normais.
No entanto, recordo que me con­taram que quando tinha oito meses caí da varanda à rua. Mas eu explico como isso foi e como é possível eu ainda aqui estar a falar sobre a minha infância.
Ora, na casa onde nasci, havia uma va­randa, na qual eu brincava habitualmente, que, por segurança, estava protegida por uma rede. Porém, um dia, por qualquer razão, que ignoro, alguém tirou a rede e eu, na minha «gatinhice», enfiei pelas grades e fiz um «voo pi­cado» até à rua… bom, até à rua não, porque tive a sorte de cair na giga de uma mulher que vendia hortaliça e que, providencial­mente, passava nessa al­tura debaixo da varanda.
Logo um senhor, que passava por ali na ocasião, agarrou em mim e levou­‑me para o Hospital. Cheguei lá e... pasmem, verificaram que não tinha nem uma beliscadura. E eu, muito sossegadinha, não chorava nem nada.
Deram­‑me, depois, lá no Hospital, uma colher de cerveja preta e trouxeram­‑me finalmente de volta a casa, onde todos se encontravam mui­to aflitos,... Mas cair de um segundo andar à rua, apenas com oito meses, e nada sofrer, hem?! Ao menino e ao borracho…
Este é, segundo julgo, o único episódio fora do vulgar da minha infância, já que não tenho ideia ouvir falar em mais nada.
Como consequência dessa queda da janela à rua, veio uma mudança de resi­dência. Minha mãe, impressionada com o acidente, não quis continuar naquela casa e, assim, mudámo­‑nos para o Castelo.
(2) Hermínia faz esta afirmação sobre o seu nascimento em entrevista ao jornal Trovas de Portugal, de 30 Julho de 1933, onde, na página seis, Hermínia escreve pela pena do jornalista: — Sou de Lisboa, freguesia do Socorro, e criei­‑me no Castelo de S. Jorge!
No Álbum da Canção, datado de 1965, fala do local do seu nascimento, mas sem muita clareza: — nasci numa travessa da qual não me lembro o nome, ali ao “Campo de Santana”.
Em 1980, quando da festa da entrega da Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa, Hermínia Silva é entrevistada para a RTP e diz que nasceu na «Rua das Flores» que ficava junto à Travessa Conde de Avintes, e que era perto do local onde morava o Armandinho. Ora este local situa­‑se na freguesia de S. Vicente de Fora e há lá uma Travessa das Flores e não Rua das Flores.

Desde que me entendo que gostei de cantar. E o fado, cantava­‑o a todo o mo­mento, e por toda a parte: na rua, em casa, na escola, desde que aos seis anos comecei a frequentar a escola, que ficava ali na Rua da Madalena, mesmo em frente da igreja.
Ora lá na escola, por vezes, havia umas festas nas quais tomavam parte algumas meninas que sabiam cantar. Eu deixava­‑me ficar muito caladinha quanto aos meus «méritos», pois tinha vergonha de os reve­lar. Até que um dia, quando se preparava uma dessas festas, uma das minhas colegas dirigiu-se à mestra e, apontando-me, revelou:
— Minha Senhora, esta menina canta muito bem!
Claro está que a professora quis, imediatamente, avaliar as minhas possibilidades e mandou-me cantar uma música que eu soubesse bem. E eu «desatei» logo a cantar um fado, daqueles bem fadistas.
A professora ao ouvir-me cantar o fado levou as mãos à cabeça e, fazendo um gesto negativo, declarou:
— Ai. Esta menina! Não… Fado não!
Depois, talvez por ver a decepção estampada na minha cara, incitou-me a cantar outra «moda» que eu soubesse. Cantei, ou melhor, comecei a cantar uma canção que sabia também, mas o pior é que mesmo a canção, na forma como eu cantava e na minha voz, soava como fado. E, de novo, a senhora me interrompeu, repetindo, um tanto ou quanto escandalizada:
— Não, fado não… Esta menina não pode cantar na festa! As meninas não cantam fado!
Escusado será dizer que fiquei com uma grande «pinha», pois cantar já era para mim uma paixão.
E começava também já a despontar em mim o desejo de representar. E chorei que me fartei.
Mas a vida continuou e eu sempre cada vez mais possuída por aquela verdadeira paixão que era para mim o cantar. E sempre que podia lá estava eu de «boca aberta» quer fosse em casa, quer fosse nas casas de pessoas amigas que me convidavam, de vez em quando, a cantar um «fadinho», quer fosse em festas particulares, onde me chamavam de propósito para eu «botar» cantiga, porque achavam que eu tinha «jeitinho».E eu ia sempre cantando e sempre a pensar no Teatro, pois nesse tempo não havia casas típicas e eu para as tabernas não ia… claro que não ia.
Até que um dia…
Estava eu em casa da minha irmã Emília (3), que morava ali em Entre Muros do Mirante, quando casualmente passou o Armandi­nho, que morava para aqueles lados e me ouviu cantar. Ou melhor, ouviu uma voz, vinda da­quele prédio. Então, subiu as escadas, bateu a porta e perguntou à minha imã, que foi quem abriu:
— Não é aqui que está uma pequena a cantar?
— É, é. É a minha irmã — re­plicou.
— Que idade tem ela?
— Olhe, tem doze anos.
— Chame­‑a lá, faz favor — vol­veu Armandinho, cada vez mais interessado.
A minha irmã, que sabia o quanto eu era acanhada, volveu:
— Ai, ela não vem.
— Chame­‑a lá — insistiu o grande Armandinho. — Olhe que ela tem uma bonita voz. Uma voz muito engraçada. Ora cha­me­‑a lá. Que eu arranjo já um contrato para ela ir gravar um disco ao «Valentim de Carvalho».
A minha irmã sorriu, pouco convencida, e explicou a Armandinho:
— Ai, ela não vai. A minha mãe não deixa.
Porém, o famoso guitarrista não se deixou con­vencer com aquela primeira negativa da minha irmã.
(3) Hermínia refere que a irmã vivia ali «Entre Muros do Mirante», à Graça, e provavelmente passava por este local quando ia para casa da irmã. Quanto à sua alusão a Rua das Flores, e como já acima referi, será lógico ser Travessa das Flores, que fica na freguesia de S. Vicente de Fora.

Gostara, sinceramente, da minha voz, da ma­neira como eu interpretava o fado e não estava disposto a desistir assim às primeiras. E então pediu licença para entrar, para falar directamente comigo.
Escusado será dizer que eu, que estivera a ou­vir toda a conversa, apareci nesse instante e, então, Armandinho dirigiu­‑se­‑me:
— Então, não quer vir cantar?
Eu claro que queria cantar, já que cantar era, pode dizer­‑se, a mi­nha vida.
Mas a verdade é que fi­quei muda e o malogrado artista prosseguiu:
— Ora vá, venha gravar um disco. Olhe, nós agora até vamos a Berlim, com o Menano e a Ercília Costa, e a menina também podia ir.
Talvez por julgar que me encon­trava a sonhar, a verdade é que per­maneci muda como um penedo, enquanto o meu interlocutor, certamente para me entusiasmar, ia pros­seguindo, tentador:
— Vá, venha que faz um «vistaço». Venha lá gravar um disco. Então não quer ir connosco cantar? Então não quer ir para o Teatro?
É claro que, se eu tinha imensa vontade de ir para o Tea­tro, naquela altura, ainda fiquei com mais. Mas não fui. Não fui com o Armandinho. Sim, não ia assim para Berlim. De maneira nenhuma...
Mas as coisas da vida nem sempre cor­rem à medida dos nossos desejos, e o mundo dá muitas voltas.
Chegou a altura em que tive necessidade de ir aprender um ofício e empreguei­‑me como aprendiza de modista. No en­tanto, o meu pensamento estava sem­pre no Teatro e no Fado. E continuei a cantar, quer pelos bailaricos, quer em festas particulares, para as quais estava sempre a ser chamada. E eu ia sempre, pois o que eu queria era cantar…


EU, QUE NÃO SOU NADA DRAMÁ­TICA,
FUI AMADORA DRAMÁTICA…

Em 1925, sempre norteada pelo grande amor que dedicava ao Teatro, inscrevi­‑me como ama­dora dramática no «Grupo dos Leais Amigos», ali ao pé da igreja de S. Vicente. O que eu queria era representar e tanto assim que representei coi­sas dramáticas, eu que não sou nada dramática... Mas tal era a fúria de ser artista... que tudo me servia.
Em 1926, representei e cantei no antigo Teatro Gil Vicente, à Graça. Foi ali que, certo dia, apareceu um senhor que era escritor, Artur Vítor Machado de seu nome. Esse senhor levou­‑me à presença do pai, o maestro A. Júlio Machado, que era empresário, e foi logo assim, que ainda nesse ano me levou numa tournée à província.
Era tal a minha gana de vencer, que me comportei de tal modo que, no início desse giro artís­tico, o meu nome figurava nos cartazes em último lugar e quando regressámos eu era já a primeira figura.
Terminada essa tournée que foi, pode dizer­­‑se, o início da minha carreira como profissional, fui trabalhar para um cinema, ali à Esperança, o «Malacaio». O contrato por oito dias que me fizeram era para cantar fados no final da exibição dos filmes.
Mas a verdade é que o público me dispensou tantas gentilezas, me acolheu e adoptou com tanta e tão grande simpatia, que esses oito dias se transfor­maram, quase sem que déssemos por isso, em dois anos.É verdade: durante dois anos consecutivos actuei no «Malacaio» em final de festa. E sempre com o pleno agrado do público frequentador da­quele cinema que não me regateou o seu apoio e os seus aplausos. Ainda hoje conservo no coração a simpatia daquele pú­blico. Foi Rui Metelo, um empresário muito co­nhecido na época, que me proporcionou esse contrato.

O PARQUE MAYER

Quando finalmente deixei de cantar no «Malacaio», fui para o Parque Mayer. Ali os estabelecimentos de far­turas tinham, ao tempo, grande clientela, estavam em voga. Ali se cantava o fado. Pode dizer­‑se que essas casas foram as percursoras das casas típicas que hoje conhecemos.
Ora, quando fui para o Parque Mayer, era contratada pelo «Valente das Farturas». Este contrato, tal como acontecera com o cinema da Esperança, era por oito dias. Mas tal como aconteceu no «Malacaio», esses oito dias prolongaram­‑se por mais dois anos.
Nessa altura, eram frequentadores assíduos no «Valente das Farturas» a grande maioria dos artistas de então, que trabalhavam nos Teatros do Parque Mayer. Muitos deles já iam lá especialmente para me ouvirem, pois gostavam da minha maneira de cantar. O meu salário então já era de cinquenta e cinco escudos diários, o que para o tempo era um grande cachet, mesmo tendo em consideração que chegava a ter seis sessões diárias.
Entre os muitos artistas que fre­quentavam assidua­mente o «Valente das Farturas», que se tornara o palco onde eu dava livre curso ao meu íntimo desejo de cantar, contavam­‑se dois artistas de grande cartel na época, que trabalhavam no Teatro Maria Vitória, que eram o Alberto Ghira e a Hortense Luz, e certo dia vieram falaram comigo, convidando­‑me a ir para o teatro. Mas eu ganhava ali muito bem, embora o teatro fosse a minha grande paixão, eu não ia trocar o certo pelo duvidoso. Foi, pois, embora contrariada, que lhes disse que não acei­tava.
O Alberto Ghira ainda voltou a insistir, mas continuei a recusar, com o mesmo fundamento de que me sentia ali bem e ganhava uma pequena fortuna, mas disse logo que no dia em que deixar de trabalhar aqui irei para o Teatro, se ainda me quiserem lá.
E, assim, se gorou a primeira grande oportuni­dade­ para eu entrar para o Teatro de Revista e dele fazer o centro da minha actividade artística.
Como já tive oportunidade de frisar, também no «Valente das Farturas», tal como acontecera, ante­riormente, no Cinema em que actuei em fim de festa, mantive­‑me dois anos consecutivos, merecendo sempre, devo reconhecê­‑lo, o carinho do público, que aliás eu fazia por manter, dando tudo quanto tinha dentro de mim, sempre que cantava, o que acontecia, como também já disse, muitas vezes em cada dia.
Mas certo dia tive mesmo que parar de cantar, porque tive uma grande constipação nas cordas vocais que me pôs bastante «à rasca», durante mais de um ano. Foi com imensa tristeza, pois como já sabem, o cantar era o maior gosto da minha vida, e além disso tinha passado a ser a minha fonte de subsistência (4).

(4) Estava­‑se em finais de 1926 e Hermínia estava grá­vida; seu filho Mário Silva vem a nascer em 9 de Abril de 1927.
Grande constipação..!, Herminia não fala da sua gravidez nesta altura, pois tem que manter a "credibilidade" da idade que diz que tem e que a sua figura muito miúda aparenta. Em 1926 tem dezanove anos, mas afirma que tem 15, esta diferença com os anos passa para menos 7 anos, por isto toda a gente fazia as contas e julgava que ela tinha nascido em 1913.

POR FIM O TEATRO DE REVISTA

Quando, finalmente, recuperei da doença, roidinha de sau­dades de cantar e do contacto com o meu querido público, que sempre me acarinhara, fui trabalhar para uma Sociedade de Recreio que, se não estou em erro, era o «Comando-Geral». Foi aí que, certo dia, o co­nhecido empresário Ma­cedo e Brito me abor­dou, dizendo­‑me que, conhecendo o meu valor achava que eu devia voltar era a cantar. Prometeu­‑me que me ia arranjar uma entrevista com o empresário de teatro António de Macedo.
Passados poucos dias confirmou­‑me a marcação da entrevista; fiquei entusiasmada, não podia perder esta nova oportunidade de ingressar no Teatro, que era o sonho doirado da minha vida, e logo fui falar com o António Macedo, que me contratou imediatamente, para actuar em fim de festa, cantando fados — claro está — na opereta «Fonte Santa» (1932).
O público voltou a corresponder inteiramente, aplaudindo­‑me com simpatia, e foi graças a esse mesmo público que, logo de seguida, fui contratada para fazer uma revista, que se intitulava Feijão­‑Frade (1933), que era um original de Xavier de Magalhães, Almeida Amaral e Fernando Santos. E esta foi a primeira revista em que eu entrei.
Foram assim na realidade os meus primeiros passos a sério com o teatro de revista, e a verdade é que, sem vai­dade, fiz um autêntico brilharete.
De então para cá tomei parte em inúmeras revistas, assim como numas quantas operetas, e até em peças declamadas.
A minha carreira continuou, felizmente, com grandes êxitos, que, certamente, eu não merecia, mas o público me quis oferecer.
Também actuei nos estúdios da RTP, a última vez foi num dos episódios da série Os Três Saloios, protagonizada por Raul Solnado, Humberto Madeira e Emílio Correia, três valores do nosso teatro ligeiro.E devo confessar que gostei.
Tive, ao longo da minha carreira, como é natural, muitas e variadas pro­postas para ir ao estrangeiro, mas como sou multo «pegada» a isto.
Tenho muita relutân­cia em sair de Portugal, eu ainda nem sequer visitei as províncias ultramarinas, apesar dos muitos convites que para o efeito me têm endere­çado e do grande desejo que te­nho de as conhecer.
— Fui ao Brasil, onde me demorei o menos tempo possível, aos Açores e à Madeira, onde fiz uma curta série de espectáculos.
Herminia Silva desde a sua estreia em 1932, participou em 13 operetas, 37 revistas, 2 peças declamadas e ainda em 5 filme e vários programas de televisão.

Conclusão do autor:

Hermínia, sem sombra de dúvidas, nasceu a 23 de Outubro de 1907, no Hospital de S. José, freguesia do Socorro, em Lisboa.

O episódio que contou sobre ter caído da janela à rua refere­‑se decerto à rua onde sua mãe morava quando do seu nascimento, Rua do Benformoso, 53, 1.º, freguesia dos Anjos, em Lisboa.

Tudo leva a crer que sua irmã morava na Travessa das Flores, freguesia de S. Vicente de Fora, em Lisboa, enqua­drando­‑se assim com toda a lógica o episódio em que conta como o guitarrista Armandinho a ouviu cantar."

© Vítor Duarte Marceneiro
Autorizada a utilização desde que seja mencionada a autoria.

sábado, maio 24, 2008

RODRIGO - "Recordações do Passado"

VÍDEO DE HOMENAGEM

Este fado, que tem letra (http://fadocravo.blogspot.com/2005_10_01_archive.html) de Frederico de Brito e música de Francisco Viana, e que foi, creio, uma criação de Noémia Cristina, tornou-se conhecido na voz genuína de Rodrigo. Um fado que recorda alguns dos nomes de referência da cultura fadista, à qual os próprios autores também pertencem.

E Rodrigo é, sem dúvida, um nome que já tem história na História do Fado.

quinta-feira, maio 10, 2007

CARLOS RAMOS - "Oração à Nazaré"

Nazaré, tradicional vila piscatória e praia de banhos conhecida internacionalmente, situa-se na Costa de Prata (litoral oeste) e pertence ao distrito de Leiria. A sua beleza natural e tipicismo, que desde sempre atraíram visitantes nacionais e estrangeiros, inspiraram também artistas das mais variadas disciplinas. Lembro, a propósito, o filme de José Leitão de Barros "Nazaré, Praia de Pescadores", estreado em 1929.
Nazaré foi também inspiração para Frederico de Brito, que escreveu esta letra que Carlos Ramos interpreta; a música é de Jaime Santos; um fado-oração a lembrar a praia da Nazaré onde, nesta época quase estival, já bem sabe dar uma passeata refrescante no picadeiro .


Um fado pouco conhecido e "misterioso", interpretado por Carlos Ramos.


VÍDEO DE HOMENAGEM

Nota biográfica:

Alfacinha de gema, Carlos Ramos tornou-se num dos fadistas mais queridos do público português, graças à sua voz quente e à sua postura modesta e discreta - e ao anormal número de grandes êxitos que teve, aliás ligados à popularidade crescente do disco e da televisão, meios de comunicação que explorou com grande sucesso no início da década de sessenta. Contudo, poucos se recordam que, apesar da sua apetência pelo fado vir de criança, só tardiamente Carlos Ramos o abraçou como carreira a tempo inteiro.De facto, Ramos gostava de ficar a ouvir o fado nas tascas de Alcântara, bairro onde nasceu em 1907, e foi como guitarrista acompanhante que iniciou carreira, aprendendo a tocar guitarra portuguesa na adolescência, nos intervalos dos estudos liceais. Estudou para médico, mas a morte do pai, com apenas 18 anos, obrigou-o a trabalhar para sustentar a família, dedicando-se à radio-telegrafia, ofício que aprendera no serviço militar e do qual faria carreira profissional. Continuava, contudo, a tocar e cantar nas horas vagas, primeiro apenas como acompanhante (nomeadamente de Ercília Costa numa digressão americana) depois também como fadista em nome próprio, acompanhando-se a si próprio à guitarra, acabando, a conselho de Filipe Pinto, por se profissionalizar como cantor em 1944. Estreou-se então no Café Luso, no Bairro Alto, criando Senhora do Monte o seu primeiro grande êxito.Ao longo da sua carreira, Carlos Ramos viria a especializar-se no fado-canção, género inicialmente pensado para os palcos de revista, e no qual conseguiria alguns dos seus maiores êxitos: Não Venhas Tarde e Canto o Fado. Frequentador regular das casas típicas de Lisboa durante as décadas de quarenta e cinquenta, fez também uma breve carreira internacional, participou em revistas e filmes e tornar-se-ia em 1952 artista exclusivo da casa de fado Tipóia, ao lado de Adelina Ramos, de onde sairia para, em 1959, abrir a sua própria casa, A Toca, experiência cujo sucesso não correspondeu às expectativas. Uma trombose ocorrida em meados da década de sessenta viria terminar abruptamente a sua carreira artística. Ramos morreria alguns anos mais tarde, em 1969.

(in http://www.macua.org/biografias/carlosramos.html)