terça-feira, dezembro 27, 2005

Ainda o NATAL !

Dois poemas: NATAL, de Domingos Gonçalves Costa e FADO, de João Linhares Barbosa

NATAL

Natal ! Um hino de esp'ranças
De ilusões e sonhos ledos
Quando as felizes crianças
Pedem beijos e brinquedos !

Natal ! Há destinos falsos
Nesta vida triste e breve
E andam pèsinhos descalços
Caminhando sobre a neve !...


FADO

Nossa Senhora faz meia,
Com linha feita de luz
O novelo é lua cheia
E as meias são para Jesus.

Quando a noite é escura e bela,
Diz-se lá na minha aldeia,
Que à janela duma estrela
Nossa Senhora faz meia,

A rodar em dobadoura
Andam quatro anjinhos nus
Prendendo nossa Senhora
Com linha feita de luz.

Jesus pequenino e loiro
Na linha todo se enleia,
As quatro agulhas são d'oiro
E o novelo é lua cheia.

Dormem as coisas mais santas,
Só a mãe santa produz
Faz serão até às tantas
E as meias são para Jesus.

Saiba porquê !...







O seu Pai Natal atrasou-se ?

Pois!...

sexta-feira, dezembro 23, 2005

NATAL

A todos os meus amigos e a todos quantos fazem o favor de me visitar e, particularmente, aos que, comentando, me fazem companhia, os meus votos de um NATAL que em tudo corresponda ao que desejam.
E, para todos, este poema de David Mourão-Ferreira
NADA/NATAL
Este lume que já nos não aquece
Este medo do nada que nos contem
Esta névoa de nata em vez de neve
E a nossa vida cada vez mais ontem
Este Sol que não rompe sob os cactos
Estes mortos de novo hoje tão perto
É no búzio dos crânios exumados
que melhor nós ouvimos o deserto
Estas folhas de plátano Estas mãos
que o fogo vai torcendo lentamente
Esta cinza no fim de uma oração
Este sino Este céu sobrevivente
Mas soa a meia-noite E logo o nada
deixa de estar em tudo como estava

quinta-feira, dezembro 22, 2005

ELISABETE

Hoje, como forma de homenagem, são para ti estas palavras, retiradas de um livro que um dia me ofereceste:

"... A mim também me fogem as horas e os dias se transformam em anos. Mas não te esqueço. E nenhum pensamento que me tenhas dedicado deixou de chegar até mim planando nas asas do silêncio. Onde quer que estejas, aperto a tua mão através da distância.
Com o meu carinho de sempre."

(in "Para uma grande amizade")

domingo, dezembro 18, 2005

O MEU CORAÇÃO PAROU

*********

O MEU CORAÇÃO PAROU
e tudo ficou parado
A voz de cantar meu fado
emudeceu na garganta
Não chego a saber quem sou
nem o que faço na vida
Sou folha no chão caída
Sou poeta que não canta
Nem um grito de revolta
nestes meus lábios cansados
Nos meus olhos magoados
o olhar de ver ninguém
Sou quarto onde ninguém volta
Sou um berço sem menino
Uma carta sem destino
que não sabe donde vem
Eu sou o louco mais louco
à solta por esse mundo
Sou um verso tão profundo
que ninguém o decifrou
Tudo isto porque, há pouco,
Quando cheguei não te vi
E até tu voltares aqui
O MEU CORAÇÃO PAROU !

(F.Menor, Letra de A. Ribeiro, interpretação de F. Maurício)

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Fabulosa Berta













Em 1967 venceu mais uma batalha contra Aquela que, mais cedo ou mais tarde, acaba sempre por vencer !...
("Clique" sobre a imagem para ampliar e poder ler a notícia)

quinta-feira, dezembro 15, 2005

DESPEDIDA

É sempre tristonha e ingrata
que se torna a despedida
de quem temos amizade
Mas, se a saudade nos mata,
eu quero ter muita vida
para morrer de saudade !

... ... ... ... ...

É assim que começa o fado intitulado "Despedida", com música e a interpretação carismática do Marceneiro de mais uma notável letra de Carlos Conde.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

domingo, dezembro 11, 2005

NARCOTI CURE !










Cartaz Publicitário 1895
William H. Bradley

Curar a dependência com outra dependência !?...

sábado, dezembro 10, 2005

Recordações

Dez. 1968

Lisboa, 5 - Na sede da Ordem dos Advogados foi comemorado o XX aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Lisboa, 19 - Na Assembleia Nacional foram aprovadas as alterações propostas à lei eleitoral, pela qual passam a ter voto todas as mulheres e os analfabetos que já eram eleitores anteriormente.
(Há apenas pouco menos de 40 anos, concederam a todas as mulheres o direito de voto, mas equiparando-as, mesmo as mais escolarizadas, aos analfabetos, certo ?
Assim se conclui que os nossos homens, mesmo os analfabetos, eram considerados umas luminárias, enquanto que as mulheres, meu Deus !, cambada de loiras!!!!!!!!!!!!!!!!.........
Estamos em 2005 e, embora quase diariamente ouça piadas sobre loiras, ainda nunca ouvi uma única sobre loiros...
Assim se conclui que os meninos, mesmo os mais analfabetos, continuam a ser aquelas mesmas luminárias, mas que as meninas, coitaditas, mesmo as mais ilustradas, são quase todas loiras... Por isso, desculpem qq. coisinha!...)
S.Paulo, 1 - O português Joaquim Agostinho venceu a Volta Ciclista ao Estado de S. Paulo; por equipas, ganhou a de Portugal.
(Nesses tempos é que era mesmo por amor à camisola !...)
Lisboa, 29 - Abertura do novo Teatro Laura Alves, instalado na sala do antigo Cinema Rex.
Paris, 10 - Inauguração do Théatre de la Ville, instalado no edifício do antigo Teatro Sarah Bernhardt. Para além da sala de espectáculos, este teatro tem um clube, um bar, um restaurante, uma biblioteca e ainda um museu com as recordações e objectos pessoais da grande actriz que ali reinou.
(Estas nem comento...)
Cabo Kennedy, 27 - Terminou com pleno êxito a primeira viagem interplanetária, da Terra à Lua e volta, efectuada durante 147 horas pela cápsula «Apolo-8», tripulada pelos cosmonautas americanos Frank Borman, James Lovell e William Anders.
(Desde que o Homem foi à Lua, nunca mais nada foi como era!... Andamos todos ALUADOS...)
Setúbal, 29 - O poeta setubalense António Maria Eusébio, o «Calafate», foi perpetuado, na sua terra natal, com um busto descerrado no parque do Bonfim, oferecido pelo Rotary Clube daquela cidade.
(Nascido na segunda década de mil e oitocentos, em Setúbal, calafate de profissão, poeta popular e fadista ou cantador, como então se dizia; em 1901 publica o livro "Versos do Cantador de Setúbal", com prefácio de Guerra Junqueiro. Morre em 1911.)
Nova Iorque, 21 - Faleceu o famoso escritor John Steinbeck, de 66 anos, Nobel da Literatura, autor, entre outros, dos romances «As vinhas da ira» e «O milagre de S. Francisco».
(Também já temos um Nobel da Literatura, o incomparável e controverso Saramago)
Leiria, 8 - Inaugurada uma estátua do Papa Paulo VI, para comemorar a passagem do Sumo Pontífice por esta cidade de Leiria, a caminho de Fátima, em Maio de 1967. É autor da estátua o escultor Charters de Almeida.
(Cidade de gente muito devota, esta... Pertencente à Diocese de Leiria-Fátima, uma das maiores dioceses do país, senão a maior - mais de 260.000 habitantes, com uma área de 1.700 km2, encontra-se dividida em 74 paróquias, pertencentes aos concelhos de Leiria, Marinha Grande, Batalha, Porto de Mós, Ourém, parte dos concelhos de Pombal, Alcanena e Alcobaça e ainda o Santuário de Fátima.)

Contas complicadas !

Dois pequenitos falam, durante o recreio:
- Quantos irmãos e irmãs tens?
- Não sei ao certo, mas tenho dois pais da minha primeira mãe e três mães do meu primeiro pai !...


Bom Domingo!

BARCELONA/FADO


Espero que este bilhete chegue a Barcelona. Selo, já tem!

Não é para vos falar da magnífica cidade de Barcelona, nem sequer do fantástico hino Barcelona, interpretado pelas vozes maravilhosas de Freddie Mercury e Monserat Caballé que, hoje, a vós me dirijo; venho falar-vos de vozes, mas de vozes do Fado. E informar-vos:
No próximo dia 16, no Auditório da Societat General d'Autors i Editors, vai ser apresentado, pelo seu autor Manuel Halpern, o livro "O Futuro da Saudade - O Novo Fado e os Novos Fadistas". Fiquei satisfeita com a notícia porque entendo que é bom que se divulgue, por outras pátrias, a Cultura Portuguesa, nomeadamente o Fado, a que alguns também chamam Canção Nacional.
Contudo, e agora só para si, Manuel, o meu receio é que não tenha emendado ainda aquela montanha de erros que tinha o livro que adquiri - 1ª edição:Nov. de 2004 ......
É que, mais dia menos dia, pode ser finalmente publicado um livro sobre Fado, à séria, com as referências históricas todas certinhas, fruto de muita investigação e trabalhinho, e o menino depois fica mal visto (só por alguns, é certo) e sempre tem um nome a defender, quer como jornalista e crítico musical, quer como intelectual...
Sim, que não podemos ficar eternamente neste deixa andar da parvoeira, coitado o rapaz diz umas coisas menos certas, mas tem boa vontade...
E agora só para vós, "Barcelonenses", Não vos acrediteis, pois, em tudo quanto diz o Manel! Perguntai-lhe primeiro se já emendou os erros e se o não fez ainda, dai-lhe o desconto, por esta vez, que a pós-graduação é em Música, mas Pop e é da v/ inteira responsabilidade!... E curtam, curtam muito a "apresentação dinâmica" (esta é boa e nova)!....

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Gerónimo / Jerónimo

Não é este Gerónimo, lider espiritual e guerreiro dos índios apaches, que quero aqui evocar, mas sim o operário português Jerónimo, também lider, mas do PCP.
Se aqui lembro também o Índio Gerónimo é simplesmente porque, de entre tantos Jerónimos, quando se fala do Jerónimo de Sousa, de imediato me ocorre a fantástica personagem do guerreiro apache.
Ontem, mais uma vez, o operário (como se auto-intitula) Jerónimo de Sousa, no "lado a lado" com o Super-Ratão Dr. Marocas, me surpreendeu : deu-lhe o troco certo e a tempo, mantendo um nível de discurso e uma desenvoltura intelectual que tomaria ter muito Doutor por extenso...
Não sou comunista, mas que admiro estes G/Jerónimos, lá isso é verdade !

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Saudação ao Brasil





















Em 1932, Berta Cardoso integrou a Companhia Maria das Neves numa digressão ao Brasil.
Nesses tempos do século passado, ir ao Brasil era ainda uma aventura; esta foi uma das primeiras idas de uma companhia de teatro ao Brasil, que abriu caminho ao intercâmbio cultural que hoje se verifica.
Na noite de estreia da revista, no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, Silva Tavares fez a Saudação ao Brasil (versos da sua autoria).
Mais informação em www.bertacardoso.com .

Eis um excerto da Saudação então feita:

Minhas senhoras, senhores:
Sinceramente lamento
não ter o claro talento
dos supremos oradores,
para, - em lugar de vos ler
esta humilde saudação-
com nervos, com emoção
e com alma, vos dizer
d'improviso, bem ou mal,
aquilo que, de momento,
me ditasse o pensamento.

... ...

Guerra Junqueiro e Bilac
escreveram, na mesma lingua
os seus versos imortais:
- esta lingua portuguesa,
toda cor, toda riqueza,
que já foi dos nossos Pais
e, ao tempo, há-de resistir
geração em geração!

Lingua que me torna irmão
de todos vós, sem mentir
nem ir contra velhas leis !
Língua de que sou vassalo,
porque com ela vos falo
e com ela me entendeis !

... ...

Que ninguém me leve a mal
quanto digo, porque o faço
unindo no mesmo abraço
O Brazil e Portugal,
- esforço traçado a cinzel
que, p'ra o contar todo inteiro,
só se o mar fosse o tinteiro
e o céu imenso, o papel !

quarta-feira, dezembro 07, 2005

JANELA DA VIDA













Foto retirada de
www.portugal.montranet.com





Para ver quanta fé perdida,
quanta miséria sem par
há nesta orbe atroz, ruim,
pus-me à janela da vida
e alonguei meu olhar
pelo vasto mundo sem fim.

Vi dar, aos ladrões, valor,
vi sentimentos perdidos
nas que passam por honradas,
vi cinismos vencedores,
muitos heróis esquecidos
e vaidades medalhadas.

Vi, no torpor mais imundo,
profundas crenças caindo
e maldições ascendendo.
Tudo vi, por este mundo,
Vi miseráveis subindo
homens honrados descendo.

... ... ...

Por isso, afirmo conciso
que, para na vida ter sorte,
não basta a fé decidida.
Para ser feliz é preciso
ser canalha até à morte
ou não pensar mais na vida.

Esta é outra letra de fado, da autoria de Carlos Conde, também proibida pela Censura, mas que, lá por isso, não deixava de ser cantada!
Incómoda para muita gente e tão actual que nem a dato...

terça-feira, dezembro 06, 2005

Cavalheirismo

25. FEV.1938
Armando Neves escreveu, a Censura proibiu, mas Alfredo Marceneiro cantou sempre que "os" apanhava de costas... Maravilhoso!

Diz uma história galante,
se é verídica não sei,
que, em certo país distante,
a Viscondessa era a amante
mais preferida do Rei.

Ora, o Visconde, coitado,
oitenta anos fazia
e o Rei, como era engraçado,
pôs-se a pensar, como é dado,
na prenda que lhe daria.

E, então, o Rei decidido
e, à falta de bons conselhos,
por presente divertido
mandou ao pobre marido
um cestinho de chavelhos.

E o portador, diligente,
com tal oferta abalou
e o Visconde, reverente,
recebeu o real presente
e ao portador exclamou:

-Como grato estou, enfim,
e a oferta não me desgosta
espere um pouco por mim
que eu vou ali ao jardim
buscar a minha resposta!

Foi colher rosas, sozinho,
às roseiras mais formosas,
com elegância e carinho
encheu o mesmo cestinho
de formosíssimas rosas.

E ao Rei as remeteu
com um bilhete, também.
Grande lição ao Rei deu
pois no bilhete escreveu:
CADA UM DÁ O QUE TEM!....

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Não quero outra companhia







Jardim da saudade
Técnica mista
Lúcia Hinz



Saudade
Sabendo que em tua ausência
prazer algum me conforta,
no momento em que saíste,
a saudade entrou-me a porta.

Andou em volta da casa,
como se ela sua fosse,
chegou pertinho de mim
puxou de um banco e sentou-se

- Estavas só e tive pena,
disse-me, então, a saudade
- Vamos esperar por ela,
podes chorar à vontade!

E não me larga um momento
toda a noite e todo o dia
Enquanto tu não voltares,
não quero outra companhia.


Esta palavra intraduzível, presente em tantas letras de Fado!
Neste caso, o poema é da autoria de Linhares Barbosa, música de Carlos Ramos

domingo, dezembro 04, 2005

QUEM DIRIA!

Ora adivinhem lá a identidade da personalidade citada:

"Ainda jovem, na fase em que tudo nos sorri, nada me fazia tão triste como a ideia de ter nascido numa época em que todas as honras e glórias eram reservadas a negociantes ou a funcionários do Governo."
"Eu não queria ser funcionário público.
Nem conselhos nem sérias admoestações (de meu pai) conseguiram demover-me dessa oposição."
"Eu queria ser pintor e de nenhum modo funcionário público.
E, coisa singular, com o decorrer dos anos aumentava sempre o meu interesse pela arquitectura."
"...Os obstáculos não existem para que capitulemos, mas para que os vençamos. ..."
"A fome participava em cada livro que eu comprava.
...
Batia-me constantemente contra a minha impiedosa amiga (fome). E no entanto, nesse tempo aprendi mais do que nunca.
... "
"Eu não sei o que naqueles tempos (em que fui operário) mais me horrorizava, se a miséria económica dos meus camaradas, se a sua grosseria espiritual e o baixo nível da sua cultura."
"Assisti a tudo isso (quadros de degradação no lar operário), em centenas de casos. No começo, sentia-me irritado ou enojado. Mais tarde compreendi toda a tragédia dessa miséria e as suas causas mais profundas.
Infelizes vítimas de péssimas condições sociais!"
"Ultimamente, eu tinha melhorado um pouco. A dor cruciante nos olhos diminuíra. Lentamente conseguia distinguir o que me rodeava. Podia alimentar a esperança de recuperar a vista, pelo menos ao ponto de alcançar, mais tarde, exercer qualquer profissão - o que eu não poderia era pensar mais em desenhar."
"Quando uma geração sofre de certos males que ela conhece e se contenta, como no caso do actual mundo burguês, com declarar levianamente que nada se pode fazer, está fatalmente condenada à destruição."
Um problema de visão que redundou num enorme problemão!...

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Alegre Manuel despedaçado












RETRATO DE MANUEL ALEGRE
Alegre Manuel alegre até à morte
que lindo nome para um homem triste
que lindo nome para um homem forte.

Alegre Manuel despedaçado
pela espada da língua portuguesa:
a palavra saudade a palavra tristeza
a palavra futuro a palavra soldado
Alegre Manuel aberto cravo
aos ventos da certeza.

Alegre Manuel aqui mais ninguém fala
tão alto como tu ninguém se cala
com essa dor serena e construída
não apenas de versos mas de vida.

Alegre Manuel as línguas do teu canto
ateiam-nos o fogo.
Neste lugar de lama e desencanto
tornas vermelho o povo.

J.C.Ary dos Santos (1970)


Lisboa e o Tejo
Acrílico sobre tela
Manuel Faia






RETRATO DO POVO DE LISBOA
É da torre mais alta do meu pranto
que eu canto este meu sangue este meu povo.
Dessa torre maior em que apenas sou grande
por me cantar de novo.

Cantar como quem despe a ganga da tristeza
e põe a nu a espádua da saudade
chama que nasce e cresce e morre acesa
em plena liberdade.

É da voz do meu povo uma criança
seminua nas docas de Lisboa
que eu ganho a minha voz
caldo verde sem esperança
laranja de humildade
amarga lança
até que a voz me doa.

Mas nunca se dói só quem a cantar magoa
dói-me o tejo vazio dói-me a miséria
apunhalada na garganta.
Dói-me o sangue vencido a nódoa negra
punhada no meu canto.

J.C.Ary dos Santos (1970)


Nota:
É nosso o sublinhado do verso "até que a voz me doa" que evoca o fado, provavelmente mais conhecido de Maria da Fé, "Cantarei até que a voz me doa", com música de Fontes Rocha e cuja letra se deve a José L. Gordo, marido da fadista.