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quarta-feira, março 06, 2013

"LOUCURA"


D.L., 1933

Gostaria de não me tornar enfadonha por vir lembrar, uma vez mais, esse "rapaz, pálido e romântico, de camisa negra à italiana, que pouco fala e aparece, sem camaradagens que o exaltem, nem amigos que o façam triunfar", mas, se o faço, é porque ele "merece, como poucos, a classificação de artista, hoje tão banalizada e desfigurada."... Um artista polimórfico, um esteta, um solitário.
"A sua alma profunda, de silenciosa sensibilidade", o seu talento, legaram-nos fados que continuam a ser verdadeiros êxitos e, se é possível dizê-lo, autênticos ex-libris fadistas.

Dos que já aqui lembrei, volto a recordar o "Fado da Loucura", de que Mariamelia, sua irmã, foi a criadora e gravou, fado cuja letra é de Frederico de Brito, mas cujo refrain é de Júlio de Sousa, igualmente autor da música. Como também já referi em verbete anterior, este fado veio a tornar-se um enorme êxito, não pela voz da sua criadora, mas pela de Berta Cardoso, que "fez do «Fado da Loucura» uma verdadeira loucura" e, por isso, lhe chamaram "A loucura dos fadistas". Depois dela, muitos outros/as cantaram esse fado e cantam ainda. Relembremo-lo, porém, nas interpretações de Lucília do Carmo e de Fernando Maurício.











Ora acontece que, dado o espantoso êxito obtido, Júlio de Sousa terá escrito, para Berta Cardoso, outra letra para esta sua música em que a fadista era exímia. Berta foi, pois, não só a grande especialista do Fado da Loucura, como igualmente a criadora desse fado com a letra que muitos fadistas também têm cantado e gravado e que aqui vamos lembrar interpretado por Mariza e por Carlos Zel




Depois, e à semelhança do que acontece com muitos outros fados, outras letras incorporaram a música do "Loucura"; por exemplo, o Britinho, co-autor da letra original, como já referi, escreve, para a Mª Alice, a letra "Vida Triste", que podem ouvir aqui.

Mas, a verdade é que, até hoje, quando se fala no "Loucura" ou no "Fado da Loucura" se associa de imediato a este fado as letras que Júlio de Sousa escreveu, seja a sós, seja em co-autoria. E interessante é verificar que, quer o "É loucura...", quer o "Sou do fado...", têm vindo a fazer parte do repertório de grande parte dos fadistas e, mesmo quando isso não acontece, todos acabam por ceder à tentação de cantá-lo, como se fosse, digamos assim, um fado obrigatório. De facto, haverá letra que melhor apresente um/a fadista ?

Sou do fado como sei, / Vivo um poema cantado / Dos fados que eu inventei.

«É Loucura» oiço dizer / Mas bendita esta loucura / De cantar e de sofrer

Assim parece ser, mesmo para os estrangeiros que cantam o Fado



(Verbete de 20.05.2011 reeditado)

segunda-feira, abril 25, 2011

"NUNCA MAIS DAREI UM CRAVO" - Carlos Zel

"E daqui grito a quem manda

A minha raiva incontida

Ver um povo que foi grande

Ter um triste fim de vida"

Um fado para hoje, cuja letra, de Vitor Pereira de Melo, pode consultar aqui e a que Carlos Zel deu voz, no Fado Amora.






domingo, julho 27, 2008

CARLOS ZEL - "Mestre João Núncio"


Com letra de Mª Manuel Cid, Carlos Zel canta, no Fado Mouraria, este "Mestre João Núncio", uma homenagem a essa figura maior do toureio a cavalo, que ficou conhecido como "O Califa de Alcácer", alcunha que lhe foi dada pelo cronista e aficionado D. Bernardo da Costa.
João Núncio, um português que faz parte da história de Portugal, pela sua arte, o seu trabalho e os seus valores morais.

Carlos Zel presta homenagem a Mestre João Núncio e eu, com este vídeo, presto a minha modesta homenagem a estes dois portugueses que muito admiro, não só pelo incontestável valor artístico de cada um, mas principalmente pela coragem, comum a ambos.
VÍDEO DE HOMENAGEM

Em Novembro de 1976, no primeiro número da revista “A Semana”, de Miguel de Araújo, surgiu uma comovente despedida a João Branco Núncio, na hora do seu desaparecimento. Foi escrita por Mascarenhas Barreto, multifacetado autor, muito mais conhecido pelas suas incursões na História (o “Colombo Português”) do que pela sua vertente de aficionado. Aqui fica essa vibrante homenagem a Mestre João Branco Núncio (a ele que nunca gostou que lhe chamassem mestre...), o maior vulto da tauromaquia portuguesa, nobre figura de alentejano, cavaleiro e lavrador.

UM HOMEM: João Branco Núncio Que outra figura poderia escolher para breve antecâmara de crónicas taurinas? Raros homens, neste século de galopante putrefacção do carácter, reuniram, como ele, tão altas virtudes de português autêntico: o amor à terra, a coragem moral e física, a generosidade discreta - quase humilde - o sacrifício abnegado nas mais cruéis circunstâncias. Vejo-o fechando na mão tisnada um punhado de torrão seco, enquanto os olhos perscrutavam um céu desesperadamente nu de ansiada chuva. Na luta contra a terra, conquistara honradamente os frutos que generosos só são quando por eles se sangra um trabalho tenaz, constante. Vejo-o fechando na mão tisnada o ferro com que, nas arenas ardentes de sol e emoção, desafiava o toiro, na mais nobre e tradicional festa popular portuguesa. Na luta contra a fera, soubera grangear o mais alto troféu de um toireiro: a admiração, o amor do povo que, ali, com ele se irmanava na valentia instintiva, no gosto por essa arte cinética secular. Vejo-o, enfim, fechando na mão tisnada as rédeas amargas, quando vilmente espoliado da enxada que sempre trouxera na carne para desbravar a terra, empunhava agora a única que lhe restava - na alma: a do toireio equestre. A este trouxera a inovação, o sentido simplista de síntese e medidas, e uma grandeza inolvidável. Não só como Centauro se oferecera aos toiros. De igual, lidava-os a pé, de capote e muleta; corria-os em campo aberto, na euforia do derrube, no apadrinhamento da apartação dos bezerros - a mesma euforia e também o mesmo anseio criador com que sofria o despontar e o envigorar das searas, dos arrozais, da vida que só a terra dá e o homem rouba... Com Núncio passou o toireio equestre a definir-se por axiomas diferentes, magistrais. Poder-se-à dizer que se tornou fronteira de estilos na lide montada: antes de Núncio; depois de Núncio. Contudo, na sua modéstia natural parecia não se aperceber de que criara uma nova era tauromáquica que seus contemporâneos seguiriam: os cânones nuncistas. Como Juan Belmonte, para o toireio a pé, João Núncio foi expoente máximo para o toireio a cavalo. Em crónica futura se falará desta Arte. Nasceu João Alves Branco Núncio a 15 de Fevereiro de 1901, na Herdade de Parchanas, de São Romão, para onde seu avô, Joaquim Mendes Núncio, lavrador da Golegã, se trasladara, em 1878. Aí, em Alcácer do Sal, cingiu esporas. Aos 13 anos, a 23 de Agosto de 1914, toireou pela primeira vez em público, num cavalo - Teodoro - que fora de Manuel Casimiro, quando a glória da "Festa Brava" equestre se disputava entre este cavaleiro e o Morgado de Covas. Depois, alternando com seu pai, Inácio Augusto Murteira, surgiu na Praça de Évora, a 20 de Setembro desse mesmo ano, "não apenas como um caso de precocidade, mas também, e principalmente, como deslumbrante revelação artística" - aplaudiu a crítica: era a sua segunda corrida. Finalmente, veio a hora da regra tradicional: na tarde de 27 de Maio de 1923, António Luís Lopes concedeu-lhe a alternativa, na Praça do Campo Pequeno. Ele próprio a concederia, mais tarde, a onze cavaleiros tauromáquicos: Dr. Fernando de Andrade Salgueiro e Dom Vasco Jardim (1938), Francisco Murteira Correia (1943), Eng.° José Rosa Rodrigues (1944), Dom Francisco de Mascarenhas (1945), Francisco Sepúlveda (1952), Gastón dos Santos (1954), seu filho, Eng.° José Barahona Núncio (1962), Eng.° José Samuel Lupi e Alfredo Conde (1963), Frederico Cunha (1968) e José João Zoio (1972). Em Espanha, onde múltiplas vezes ergueu as praças de entusiasmo e admiração, foi o primeiro cavaleiro português a matar toiros, a cavalo, a estoque. Em Portugal, consagrou-o o povo como sendo "o maior". Era-o, de facto: o maior vulto da história do toireio a cavalo em todo o mundo. Depois, não mais parou de empolgar as arenas, senão quando o acidente da queda de um cavalo aniquilou seu filho e o desgostou para sempre de honrarias, ovações. Contudo, aos 75 anos - salvados três cavalos do assalto infame da negra saga de ocupações predatórias - não lhe faltou coragem para enfrentar, de novo, a vida nos redondéis. Por fim, na Golegã, quando serenamente preparava um dos corcéis, veio a enfrentar a morte - derradeiramente. Estava a cavalo, enforquilhado na sua sela-charrua; pés bem firmes nos estribos da honradez, da dignidade. Pelos olhos nublados, entre terra e céu, ter-lhe-iam desfilado, nos cenários edénicos verde-azuis das lezírias e calmosos verde-pardos das charnecas, essas montadas fiéis em que se prolongara a sua imagem cavaleira: Relâmpago, Santander, Pregonero, Alpompé, Lidador, Numerário, Quo Vadis, Pincelim, Sultão, Gaio, Malhinha, Marialva, Temporal, Gaiato, Ribatejo, Glorioso, Garoto e tantos outros, crinas ao vento, alados como pégasos. Também os toiros, não como adversários de violência animal, mas como nobres lutadores leais (que não os homens semeadores de ódio) e sobretudo aquele inesquecível Trompeta que foi base da sua ganadaria de sangue Urquijo. Inscreveu-se Núncio ao centro de um triângulo: Toiro, Cavalo, Terra. Triângulo iluminado de amor, quase signo da Pátria que ele visceralmente vivia. Nunca a traiu. Quem da vida faz altar de trabalho e esperança não pode - não sabe trair. À terra desceu, entre o amor dos homens - não da escassa escumalha arrebanhada por traidores rapaces, mas do povo-Povo, em cujas veias corre sangue puro, como os ares lavados das manhãs campestres: seiva da própria terra. Morto para a Pátria - com a Pátria -, outro triângulo mais alto o ilumina: o signo de Deus.
Mascarenhas Barreto

Ao lembrar João Branco Núncio, necessário se torna lembrar também os seus belíssimos cavalos-toureiros, "essas montadas fiéis em que se prolongara a sua imagem cavaleira", como se refere no texto acima transcrito, de Mascarenhas Barreto.

Aqui vos deixo esta pérola, retirada do Século Ilustrado de 13 de Fevereiro de 1943, que encontrei aqui http://revistaantigaportuguesa.blogspot.com/ (um blog de referência), uma "entrevista" ao famoso cavalo ALPOMPÉ.





































quarta-feira, agosto 01, 2007

CARLOS ZEL - "Nossa Senhora do Fado"

Um fado que é uma prece- "Guarda e protege os fadistas, N. Srª do fado!"
A voz de Carlos Zel, letra de Hortense V. César, música de "Vianinha".
Que Nossa Senhora ouça Carlos Zel !