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domingo, maio 07, 2017

AMOR, SAUDADE e MÃE


Um poema de Armando Neves, do repertório de Berta Cardoso, a celebrar o Dia da Mãe com "as três palavras mais belas que a nossa língua contém... Amor Saudade e Mãe"


autor de uma das mais notáveis letras de fado - Cruz de Guerra - poema com que obteve o 1º Prémio de Poesia (1935) e que foi expressamente escrito para a grande figura do Fado de então - Berta Cardoso -, poema cuja tónica recai igualmente nessas "três palavras mais lindas" da nossa Língua ... Mãe, (que é) Amor e (que é já ) Saudade... (e também) Dor


Saudade, Mãe!
Maior Amor
Maior a Dor

quarta-feira, julho 25, 2012

"Cruz de Guerra" - Berta Cardoso


No verbete anterior, publiquei o poema - Cantiga do Soldado -, datado de 1915, de Manuel de Barros, em que se refere que, ao partir para a guerra, o soldado leva consigo " a guitarra sensual" porque "vencer cantando o Fado / É fado de Portugal". É deste modo que se assinala a presença dessa "Cantiga do Soldado" nos adversos tempos de guerra. Essa Canção que, entre as mais diversas temáticas, tratou também da problemática da guerra, esse pesadelo maior da Humanidade, que tão presente continua no mundo, a afligi-la, infligindo-lhe as maiores desumanidades.
Como bem sabemos, a primeira metade do século passado foi ensombrada pelas 1ª e 2ª guerras mundiais, de 1914 a 1918 e de 1939 a 1945. É precisamente em 1935 que Armando Neves escreve "A Cruz de Guerra",  poesia com que obteve o 1º Prémio de poesia, no Concurso-Literário desse ano, do S.P.N. Essa letra é posteriormente musicada por Miguel Ramos, para o repertório de uma das 1ªs figuras do Fado de então, Berta Cardoso, que o grava pela 1ª vez em 1936, acompanhada pelo próprio Miguel Ramos e por José Santos. Este é, creio bem, o seu mais emblemático fado e, provavelmente, o fado que esteve durante mais tempo nos Hits da rádio dos anos 30, 40 e ainda 50. Compreensivelmente. O assunto que a todos preocupava (preocupa) era a guerra e era igualmente o assunto que a todos colocava (coloca) grandes questões humanitárias... Particularmente, por certo, a todas as mães, às dos vencidos e igualmente às dos vencedores, a todas aquelas que, mesmo recebendo uma medalha- "Cruz de Guerra" - que simboliza o reconhecimento da Pátria pela bravura dos seus filhos, não podem alienar a tristeza que sentem pela morte desses seus mais preciosos bens; é, por certo, contraditório, este orgulho que se sente pela coragem dos filhos, que se batem pela Pátria e a dor pela perda de quem mais se ama; é, por certo, contradição e contraste que, nesses momentos de intenso pesar, uma mãe, que chora a morte do seu filho, tenha ainda espaço para pensar nas outras mães, as do "inimigo", que choram também pelas mortes dos seus, que esse acto de bravura, quiçá, terá ocasionado...
De facto, na guerra, não há vencedores nem vencidos; há apenas perdedores, predadores e muita Dor...


Aqui fica a letra "A Cruz de Guerra", devidamente visada pela Censura, e o registo de duas versões deste fado, uma mais moderna e outra, a 1ª gravação segundo creio, na interpretação da sua criadora- BERTA CARDOSO
Como curiosidade, igualmente aqui fica o registo da interpretação do mesmo fado por Isabel de Oliveira, uma das poucas fadistas, senão a única, que "ousou", depois da sua criadora, não só interpretar, mas mesmo gravar, este quase que exclusivo de Berta Cardoso. 







terça-feira, outubro 11, 2011

"FIGURAS DO FADO"





Três sonetos que Armando Neves (1899-1944), poeta e jornalista, dedicou, homenageando, a estas três grandes Figuras do Fado, painel em que ele igualmente deverá figurar como um dos mais importantes letristas. Dele, lembramos alguns dos que foram grandes êxitos: "Cruz de Guerra" e "Canção da Neve", criações de Berta Cardoso, "Amor de pai", criação de Mª Emília Ferreira e "A Freira", do repertório de Joaquim Campos, entre outros.
Sentados a uma mesa da "Adega O Faia", espaço inquestionavelmente ligado à grande Lucília do Carmo, Berta e Marceneiro ouvem atentamente Linhares Barbosa que lhes estará lendo uma nova letra, provavelmente para o repertório de Berta Cardoso que, nos anos 50 foi dirigente artística daquele restaurante típico.

quarta-feira, outubro 05, 2011

MARIA VITÓRIA


Maria Vitória por Armando Neves

" P'ra se cantar bem o fado / não é preciso talento... / -É preciso ter chorado / p'ró cantar com sentimento! " (Pereira Coelho)


terça-feira, novembro 10, 2009

BERTA CARDOSO - "Amor Filial" e "Cruz de Guerra"





Mais um belíssimo vídeo da EradoGramophone

com dois fados gravados por Berta Cardoso, em 78rpm, duas raridades - Amor Filial, de Luiz da Silva Gouveia e de Jaime Santos e Cruz de Guerra, de Armando Neves e de Miguel Ramos.
Obrigada pela partilha.
De facto, a Cultura não deve ficar fechada em armários, nem arrumada em estantes...
Parabéns por pertencer ao grupo dos poucos que, no meio do Fado, têm esta disponibilidade, esta atitude, esta generosidade de partilhar estes bens raros!...

quinta-feira, outubro 15, 2009

BERTA CARDOSO - "Marinheiros de Portugal" e "Mulher Portuguesa"



Em http://www.youtube.com/user/eradogramophone
O Canal eradogramophone editou mais este belíssimo vídeo de outros dois êxitos de BERTA CARDOSO - "Marinheiros de Portugal" e "Mulher Portuguesa", ambos da autoria de Armando Neves e de Miguel Ramos, como consta nos respectivos registos fonográficos em 78rpm.

Armando Neves foi um dos poetas que mais escreveu para o vastíssimo repertório de Berta Cardoso, particularmente no início da sua carreira. Aqui partilho mais este documento, a letra do"Marinheiros de Portugal", devidamente autorizada...

sábado, novembro 22, 2008

CIDÁLIA MOREIRA - "Fado Freira"


VÍDEO DE HOMENAGEM

"O Segredo da Freira", assim se intitulou originalmente este fado, da autoria de Armando Neves e de Miguel Ramos, que foi do repertório de Joaquim Campos, aqui interpretado por Cidália Moreira que, como se reparará, não canta a 2ª estrofe do poema.

G.P.36

"O QUE FEZ CIDÁLIA
O fado, queiram ou não, tornou-se um dos símbolos vivos da língua: saudosista de primeira, rebelde acima de todas as suspeitas, história em pacto de intimidade com quase tudo o que é comtemporâneo. Ao longo do tempo não faltaram tentativas de lhe atribuir parentescos, descobrir-lhe intenções, ou mesmo dar-lhe um corpo - Maria da Glória ou Glória Maria. Cada um vê o fado à sua imagem e semelhança. Quando Cidália Moreira tomou o lugar entre fios e microfones e, com uma voz meridional, começou a trabalhar como suas as palavras do fado, aquelas caras da noite que assistiam recapitularam todas as perguntas possíveis. Para uns o fado é uma "força cósmica universal". Será? ou antes, uma espécie de antropofagia'? Será? Para outros, um pouco de grito a que a minoria lusitana terá direito. De vez em quando era quase necessário que Cidália parasse para alguém dizer: é isso mesmo. Cidália Moreira é forte e frágil ao mesmo tempo. O olhar é bravo e comove-se: não é teatro onde a simulação tem o seu valor. E as mãos são transparentes e acompanham como ferro uma voz que não é claustro: sente intensamente o mundo presente. Tenta agarrar outras palavras quando estas a tentaram para formas de sentimentalidade. O fado de Cidália deixa bem claro, que é falsa a reputação de distância que cerca o fado. Será então, o fado, um serviço público? É enquanto gerava fado nos poemas de Vasco Lima Couto e de José Carlos Ary dos Santos, alguém se lembrou que fazer fado é uma forma de confissão, de nudez e se não for assim, será brincadeira ou mistificação. E porque não Camões ou Carlos Drummond de Andrade? O fado a prestar um serviço: deselitizar a poesia, pôr a língua na civilidade. Castiço é isto. Vêem alguns no fadista um profeta visionário a relembrar a face menos nítida e menos real de um país que não existe. Não vi Cidália a desgastar-se nisso. O que fez Cidália? Procura textos que digam alguma coisa ligada à vida de todos os dias? Cantigas de amigo? Foram umas longas horas de teste definitivo. A provar que a poesia pode estar no dia-a-dia. Num exercício solitário de fado. E mesmo quando se discorda do texto, Cidália transforma o fado numa adivinha: trabalha cada palavra como se cada palavra estivesse desligada dos que a ouviam. Forma umas longas horas com um fado que vai percorrer o purgatório das interpretações num país onde a educação poética e musical foi sempre moldada por padrões estrangeiros. Por isso, menospreza-se a categoria dos clássicos do fado. a não ser que fique arrumadinha na prateleira folclórica dos costumes vocais nativos. Todavia, a força manifestada por esta algarvia levanta questões e problemas cruciais à prática cultural no Portugal de hoje. Por exemplo: o dilema dos que hesitam entre cantar para o povo e não apenas sobre ele. É evidente que não compete ao fadista tentar sistematizar o estudo do carácter nacional a partir do "português" revelado no folclore, na mitologia e na tradição. Esta tarefa competirá aos que não receiam ser vítimas conscientes das contradições do sistema. Deste ou daquele sistema, é da teoria. Ao fadista compete reflectir deliberadamente um estilo, de vivência ou de narrativa. Cidália criou um estilo tanto mais forte quanto o texto é fruto de uma imaginação fértil. E um estilo que sofistifica o verso. Um estilo que provou, ao longo de horas, que o fado não é para iniciados. É para ser ouvido pelos que o próprio fado retrata. O valor permanente do fado está nessa sua pretensão: a aspiração do fadista que se dispõe a expressar o seu país em palavras e não apenas a entendê-lo. Nesse sentido, o fado é parte de uma luta entre a cultura oral e a cultura escrita. Não existe sem oralidade e não fica limitado a um público restrito. E a nostalgia vem desta identificação... O fado que fez Cidália aponta para tudo menos para o que tem sido entendido como "essencialmente destruidor" e não se circunscreve no que tem sido descrito como "uma vasta ilusão". Nem sequer para uma "orgia intelectual". O que se ouviu de Cidália, pela forma como se ouviu, é um antindividualismo dirigido voluntarioso, para não dizer implacável. Provou ao longo de horas que o fado tem, neste país, o elementar direito permanente à pesquisa estética, à actualização da inteligência artística portuguesa e à estabilização de uma consciência criadora nacional. Uma prova destas é uma conquista muito mais importante do que a sensualidade oral já conseguida para o fado, por exemplo, por Amália Rodrigues, e mais importante do que os cantares do submundo português dos anos 40 e 50 a lembrar as esperanças que restavam no crespúculo do arbítrio. Cidália, possivelmente alheia ao efeito teatral da sua voz, não se veste com fantasias. Tenta fazer uma história. A história do fado que se recusa a ser infeliz por um preço qualquer.
Carlos Albino Guerreiro "
( in http://www.macua.org/biografias/cidalia.html )

I.P.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

MÃE















Hoje há mais uma estrela no céu !
A Minha Querida Mãe

As palavras mais bonitas
que a nossa Língua contém
são estas três, tão benditas:
Amor e Saudade e Mãe...
.... .... ....
(Armando Neves)

... .... .... ...
Quando, cansada da vida
E farta de mil abrolhos
Queria que a fechar meus olhos
Fosses tu, mãezinha querida !
Sem ti, é mais dolorida
Da vida, a dura jornada
Mas Deus quis, mãe adorada!
Que tu partisses primeiro
E, no mundo traiçoeiro,
Quem não tem mãe, não tem nada!

(Domingos Gonçalves Costa)


Não minha mãe. Não era ali que estava.
Talvez noutra gaveta. Noutro quarto.
Talvez dentro de mim que me apertava
contra as paredes do teu sexo-parto.

A porta que entretanto atravessava
talhada no teu ventre de alabastro
abria-se fechava dilatava.
Agora sei: dali nunca mais parto.

Não minha mãe. Também não era a sala
nem nenhum dos retratos de família
nem a brisa que a vida já não tem.

Talvez a tua voz que ainda me fala...
... o meu berço enfeitado a buganvília...
Tenho tantas saudades, minha mãe!

(J.C. Ary dos Santos)


terça-feira, dezembro 06, 2005

Cavalheirismo

25. FEV.1938
Armando Neves escreveu, a Censura proibiu, mas Alfredo Marceneiro cantou sempre que "os" apanhava de costas... Maravilhoso!

Diz uma história galante,
se é verídica não sei,
que, em certo país distante,
a Viscondessa era a amante
mais preferida do Rei.

Ora, o Visconde, coitado,
oitenta anos fazia
e o Rei, como era engraçado,
pôs-se a pensar, como é dado,
na prenda que lhe daria.

E, então, o Rei decidido
e, à falta de bons conselhos,
por presente divertido
mandou ao pobre marido
um cestinho de chavelhos.

E o portador, diligente,
com tal oferta abalou
e o Visconde, reverente,
recebeu o real presente
e ao portador exclamou:

-Como grato estou, enfim,
e a oferta não me desgosta
espere um pouco por mim
que eu vou ali ao jardim
buscar a minha resposta!

Foi colher rosas, sozinho,
às roseiras mais formosas,
com elegância e carinho
encheu o mesmo cestinho
de formosíssimas rosas.

E ao Rei as remeteu
com um bilhete, também.
Grande lição ao Rei deu
pois no bilhete escreveu:
CADA UM DÁ O QUE TEM!....